A Dor do Parto

“Parirás com Dor”. Quem nunca ouviu esse trecho bíblico ou traz essa idéia na consciência? Quando falamos sobre parto, para maioria das pessoas, a associação da palavra Parto é feita com a palavra Dor. Quantas vezes quando você disse que teria ou teve um parto natural, ouviu “Nossa você é corajosa!”, mas esse “corajosa” soa de alguma forma como “maluca inconsequente”? Seguindo na pergunta primordial, Parto dói? Sim e não. Como assim? Lá vem a comunista do parto natural romantizar o parir. A questão aqui não é romantizar ou demonizar, mas sim questionar as criações mentais e o poder do inconsciente coletivo, das determinantes estabelecidas sem que nos fosse dada a chance de viver primeiro a experiência para depois sim classificar. A dor do parto muitas vezes está associada a uma necessidade natural da mulher se calar, se recolher, encontrar uma posição de conforto, enfim, viajar para dentro de si. Dor e prazer são mecanismos que caminham juntos e no parto estão absolutamente associados. O que me traz um questionamento fundamental, e se vivêssemos num mundo em que parto fosse associado ao prazer? Será que não seria essa a nossa crença pré-estabelecida e isso influenciaria nossa vivência? Como coach e terapeuta alinhada à teoria Junguiana, reconheço o poder das visualizações criativas, das crenças limitantes e fortalecedoras e do inconsciente coletivo que enraiza idéias que muitas vezes nem percebemos que carregamos dentro de nós. O Parir é uma jornada intensa, mágica, um caminho desconhecido. Dar a luz, trazer uma vida ao mundo, se abrir, se permitir, se entregar… tudo isso dói, mas não é uma dor de tristeza, é uma dor de transformação, de luto do que se deixa para trás e de celebração do que se receberá a partir dali. A contração é como uma onda, aos poucos toma forma, atinge seu ápice e depois se dissolve no grande oceano. Assim como devemos acolher as sombra, receber a contração e aceitá-la como parte de você e de todo o processo a torna sua amiga, sua companheira de jornada e aprendizado. Nenhuma mulher sai a mesma do parto, ali há uma alquimia, uma transmutação, nasce um bebê, nasce uma mãe, desperta uma mulher selvagem. Às vezes dói nos reconhecermos intimamente e isso acontece no parto, mas não é uma dor ruim, é uma sensação de se encontrar com um ‘eu’ que não sabíamos nos habitar, é se reconhecer em toda sua força e plenitude, é saber que se é muito mais forte do que se julgava ser, é entender que dentro de nós reside uma Deusa poderosa capaz de fazer o inimaginável. Não há para mim imagem mais nítida da mulher selvagem que corre com os lobos do que uma mulher parindo, entregue, envolta nas emoções, nas dores, nos movimentos, no sentir o bebê e no prazer, no intenso e inexplicável prazer de parir.  Parto não dói, transforma! E que em nossas crenças se enraíze os dizeres “Parirás com prazer!”

Por Priscila Saldanha - Doula, Consultora Perinatal e Terapeuta Integral Sistêmica

2 comentários sobre “A Dor do Parto

  1. Fernanda França dos Santos Fernandes disse:

    Agradeço por essas palavras que traduz tudo que sentimos . Parto não é sofrimento é dor da vida É o empoderamento é a mulher ser protagonista do nascer do seu bebê. Precisamos quebrar TABU Parir é fisiológico o corpo da mulher está preparado para parir . Nós mulheres ao longo dos anos fomos vitimizadas e enfraquecidas como mulher . Sendo que a vida é gerada pela mulher . Chega de violência obstétrica.

    Curtido por 1 pessoa

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