Eu só quero parir!

Eu só quero parir! Quero ter o “privilégio” de minha filha chegar ao mundo de forma respeitosa e natural. Mas o sistema médico-hospitalar conspira contra. Eu, uma leiga em medicina, preciso estudar diariamente e lutar com unhas e dentes para não passar por uma cirurgia desnecessária por pura conveniência dos médicos e hospitais? Por despreparo, ignorância, ganância, protocolos seguidos às cegas. Pago um convênio particular mas não consigo confiar nos médicos que me oferecem. Vou para o SUS e rezo para dar sorte de pegar uma equipe que não esteja saturada com a falta de recursos? Tenho 9 meses para me preparar para o parto. Posso fazer tudo certinho. Pré-natal, exercícios, leituras, alimentação, exames… tudo perfeito. Mas fica o medo de, na hora H, daquele momento que deveria ser mágico e único se transformar num filme de horror onde terei que lutar contra a violência obstétrica. O parto que deveria ser algo natural e fisiológico, feito pela mãe e pelo filho com uma assistência respeitosa se transforma num evento médico onde a mãe vira apenas o invólucro que deve ser amarrado, privado de alimento e água, cutucado, cortado, pressionado, espremido para ejetar um novo ser que já será esfregado, examinado, esticado, testado, protocolado. Não! Mil vezes não!

Então vamos buscar um parto humanizado! (Não é espantoso terem criado uma categoria de parto chamado humanizado? Isso não deveria ser um pleonasmo? Qualquer evento fisiológico ou médico não deveria ser humanizado a priori?). Parto humanizado é artigo de luxo. Não é procedimento padrão nem no SUS nem na mais refinada maternidade-hotel 5 estrelas. Depende de sorte, de condições perfeitas de temperatura e pressão (e boa vontade, alinhamento planetário, equipe levantando com o pé direito no dia). Ou de investimento extra pelo “pacote plus”. Mas não posso pagar e nunca ganho na loteria ou na rifa, como faço? Senta e chora? Não, sem gritar porque assusta a todos, deita e abra as pernas ou deixa que abram sua barriga e ainda dê graças por terem sobrevivido.

Esse texto foi um desabafo que fiz na minha última gestação. Estava desesperada de verdade! Percebi que meu primeiro parto (hospitalar com intervenções desnecessárias) aconteceu por sorte (em Junho de 2012 tive o único parto normal em uma semana naquela Maternidade!).

Spoiler: Pari naturalmente em Julho de 2016 em um lindo parto domiciliar, assistida por Enfermeira Obstétrica e apoiada por uma Doula, meu marido e minha filha. Tudo isso graças a minha luta, estudo, empenho, uma Rifa que sorteei e a ajuda financeira e apoio da família! E sorte por ter tido essa oportunidade.

E por isso me tornei Doula e sigo na luta para mudar essa realidade!

Por Ana Karla Veloso Valentim - Doula, Consultora Perinatal e Fotógrafa

2 comentários sobre “Eu só quero parir!

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