Devo contratar uma doula ou enfermeira obstétrica?

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(Não existe profissional 2 em 1)

Ter uma doula ou uma enfermeira obstétrica? Eis a questão! Essa é uma daquelas polêmicas que, ao meu ver, nem deveriam existir, considerando que o papel desempenhado por ambas profissionais é muito diferente. Então, antes de abordar a polêmica propriamente dita, cabe aqui desmistificar o papel de cada uma:

O que faz a Doula?

Suporte emocional contínuo, destaque aqui para o ‘contínuo’. A doula está na cena de parto como suporte, apoio e acolhimento da mulher, ela não tem o envolvimento familiar e também não tem o olhar técnico. Esse é o grande diferencial dessa profissional. A imparcialidade com amor faz com que a doula seja aquela que acredita e incentiva a mulher até o final. Ela conhece muito bem a fisiologia do parto, mas não está ali para monitorar e avaliar tecnicamente, então seu olhar é de envolvimento e apoio emocional sem o vínculo familiar que muitas vezes gera insegurança.

Eu mesma já ouvi de muitas mulheres e de Enfermeiras Obstétricas em partos mais complexos que a minha visão não técnica foi o que segurou e incentivou o parto até o final sem intervenções. A Doula inicia seu trabalho de suporte e informação desde a gestação. No parto geralmente é a primeira a chegar e a última a ir embora. Dá colo, abraça, faz massagens, usa métodos não farmacológicos de alívio da dor, dança junto, respira, olha nos olhos, acredita e incentiva.

A Doula conhece a mulher profundamente e, assim, vai usando estratégias emocionais personalizadas para que a parturiente não desista. Mesmo que ela chegue no limite (ou se acontecer alguma intercorrência) e uma cesárea ou intervenção seja necessária, a Doula trabalha o emocional para que a experiência de parto seja positiva e para que as decisões da mulher sejam conscientes. Isso tem um impacto muito grande no pós-parto.

Estudos científicos já mostraram que a presença de uma doula reduz em 60% os pedidos por anestesia, 50% a taxa de cesáreas, 40% o uso de ocitocina sintética, 20% o tempo de duração do trabalho de parto. Reduz o uso de intervenções médicas em geral e aumenta a satisfação da mulher com o próprio parto, diminuindo assim as taxas de depressão pós-parto.

Outra observação importante é que a Doula não deve estar vinculada hierarquicamente (lembrando que indicação e parceria de desconto é diferente de vínculo hierárquico) à equipe do médico ou do hospital, porque assim ela perde um dos pilares da sua atuação que é estar vinculada exclusivamente a mulher.

O que faz uma Enfermeira Obstétrica?

A EO é uma profissional de saúde com curso superior completo, formada em enfermagem e especializada como enfermeira obstetra ou então formada em obstetrícia (Obstetriz).

Em qualquer uma das possibilidades, a formação dela a capacita para atender o parto normal sem complicações e também para identificar problemas no parto que tornam necessárias as intervenções médicas.

Ela é a responsável pela parte mais técnica, pelo binômio mãe-bebê, pelo monitoramento e avaliação da grávida e do bebê durante o trabalho de parto ativo. A EO é a profissional habilitada para acompanhar partos em gestações de risco habitual, mesmo sem a presença de médicos. Ela pode, no entanto, fazer parte da equipe da (o) médica(o) ou do hospital, por ter um papel técnico.

Geralmente o seu papel é confundido com o da Doula quando falamos do Acompanhamento Pré-Hospitalar – APH, no entanto mesmo nesses acompanhamentos, o papel da EO é técnico e de monitoramento. Ela também traz métodos não farmacológicos de alivio da dor, também abraça, faz massagem, mas seu olhar é técnico por natureza. Ela está na cena de parto com essa responsabilidade, logo, por mais carinhosa e amorosa que ela seja, a sua presença não substitui a doula.

A obrigação legal e técnica da enfermeira obstétrica é de monitoramento e caso ocorra qualquer intercorrência, ela focará toda sua atenção na solução da questão.

Da mesma forma que não se questiona ter um médico ou uma Doula não se deveria questionar ter EO ou Doula. A assistência humanizada é baseada em evidências defende a equipe multidisciplinar em que cada profissional conhece e desempenha o seu papel, respeitando sempre os demais profissionais. Com isso, a mulher ganha a melhor e mais completa assistência.

Tome cuidado

Quando uma profissional oferece um trabalho 2 em 1, ela está indo contra a medicina baseada em evidências e, por isso, deixa de figurar entre profissionais verdadeiramente humanizados.

Não há dúvidas que a melhor assistência para gestações de risco habitual é aquela prestada por EO e Doula, especialmente quando falamos sobre APH e Parto Domiciliar.

No entanto, nem todas as mulheres querem uma Doula e/ou uma EO. Isso é perfeitamente aceitável, mas o que não se deve é querer que uma pessoa desempenhe ambos papéis, porque isso é inviável. Não traz os benefícios esperados e também é um desrespeito com ambas as profissionais.

Para entender ainda melhor

Um dia desses, um pai que atendi me deu o exemplo da festa de casamento. Você contrata uma cerimonialista para te acompanhar durante todo o processo de planejamento e realização do casamento. A cerimonialista está na cena para te orientar, te apoiar, cuidar de você durante o casamento. Ela não substitui nenhum dos outros profissionais. Muito menos o noivo!

Essa é a Doula. Ela estará lá para cuidar de você, te acolher, te lembrar o tempo todo do porquê vocês está ali, cuidar do seu bem-estar físico e emocional. Ela não substitui e nem é substituída por nenhum dos profissionais e nem acompanhantes.

E se eu precisar escolher?

Logicamente que muitas vezes a questão financeira pesa e a mulher se vê obrigada a escolher entre uma das profissionais. Nestes casos existem dois caminhos. Um é buscar doulas e EOs que fazem desconto quando a equipe é multidisciplinar e que parcelam e facilitam o pagamento. Nossa Rede, inclusive, estimula estimula dessa forma. O outro caminho é analisar toda a sua situação, expectativas e necessidades, e compreendendo os papéis de cada profissional, decidir com base na sua realidade o que é prioridade. Sem a ilusão do 2 em 1.

Doula é Doula, EO é EO, Médico é Médico, Fisioterapeuta é Fisioterapeuta, Gato é Gato e Lebre é Lebre!!! A dica da Doula é: Fuja de profissionais que não respeitam a importância da equipe multidisciplinar, porque esse é um dos pilares da humanização!

Por Priscila Saldanha - Doula, Consultora Perinatal e Terapeuta Integral Sistêmica

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