Os Medos do Parto

Os medos fazem parte da nossa vida, alguns explicáveis, outros ditos irracionais, mas fato é: são legítimos para quem os sentem. Os medos surgem de histórias ouvidas, traumas vivenciados, crenças individuais, familiares e coletivas. Estão em nossa casa, no ambiente familiar e no imaginário do povo. Muitas vezes não os materializamos, apenas sentimos o desconforto quando ouvimos, vemos ou vivenciamos algo, e quando isso acontece geralmente não conseguimos lidar, não nos preparamos e depois também não buscamos nas origens como resolver.

Medos muitas vezes são segredos guardados a sete chave,  escondemos na esperança de não vivenciá-los, mas eles escapam da caixinha e aparecem sem aviso prévio. Quando falamos em parto, as pessoas fazem muitas associações e nesse momento podemos encontrar os medos que permeiam o inconsciente individual e coletivo. Medo de morrer, medo de não conseguir, medo do expulsivo, medo da dor, medo do desfecho, medo de não ser a melhor escolha… são muitos medos e que muitas vezes não nos permitimos falar e analisar, porque decidir por um parto natural no Brasil já é um grande ato de coragem, então precisamos sempre nos mostrar muito certas de nossa decisão do contrário sofreremos ainda mais assédio por parte de profissionais e até familiares.

E aí que mora um perigo pouco falado, para parir com prazer (não necessariamente sem dor) a mulher precisa estar segura, isso não é mágica e nem crendice (apesar de que as “crendices” tem um imenso valor), isso é sistema neurológico. O nosso sistema límbico, o mais primitivo, é o responsável pelo trabalho de parto, ele move as engrenagens que se movimentam, entre hormônios, contrações, etc, é um perfeito sistema fisiológico em que os órgãos agem involuntariamente. Para esse sistema funcionar em alta performance é necessário que o neo-córtex (nosso sistema racional) tenha sua atividade reduzida pois eles são antagônicos, não funcionam bem juntos. Assim como a produção de ocitocina (hormônio do amor) é fundamental e a adrenalina em altas doses é extremamente prejudicial. Como esse sistema límbico pode atingir seu ápice se medos brotam e ativam o neo-córtex, a produção de adrenalina aumenta e aí temos a famosa reação de Luta ou Fuga? Ele não atinge e aí vemos aqueles vários relatos de paradas de progressão quando a mulher chega ao hospital ou quando se depara com procedimentos agressivos ou até quando chega em determinadas fases do trabalho de parto que despertam esse medo. E aí surge a pergunta, como podemos evitar isso ou atenuar?

E a resposta é: abrir a caixinha das sete chaves, abrir antes do parto, buscar acessar aquilo que está escondido e resinificar e também trabalhar as crenças que surgem das histórias familiares e da própria comunidade. Foram anos de desgraças sendo noticiadas (como sempre falo se soubessem que para cada 1 desfecho negativo em PN, temos pelo menos 03 em cesáreas, não daríamos tanta atenção, mas a mídia tem um forte poder sobre nossas crenças e isso extrapola as evidências), anos de partos violentos em que os desfechos ruins não foram em razão da natureza, mas sim da má assistência, anos de desinformação, e é inegável a influência disso tudo em nós mulheres. Por mais que estudemos racionalmente, por mais evidências que tenhamos, por mais bons profissionais e grupos que encontramos, isso tudo está no racional ali no neo-córtex e se lembra quem é o responsável pelo parir? É o límbico, primitivo, é aquele que não vai guardar as evidências e só vai viver. No momento do parto, na verdade por toda a gestação e puerpério, acontece uma imensa transparência psíquica, é como se todas as caixinhas que guardamos bem trancadas se abrissem, histórias ressurgem, conflitos aparecem e nem sabemos de onde vem e os medos brotam, muitas vezes sem cara, apenas em sentimentos e sensações.

Minha experiência acompanhando mulheres com suas mais diversas histórias e realidades mostrou que trabalhar e ressignificar os medos é uma das etapas mais significativas do trabalho e as libertam para seguirem mais leves e plenas nessa mágica jornada do gestar, parir e maternar.

A Rede Ocitocina realizará no dia 23/12 de 9h às 13h em Brasília a Oficina Vivencial Parir Sem Medo que será facilitada pela Doula e Terapeuta Integral Sistêmica Priscila Saldanha.

Saiba mais: https://www.facebook.com/events/1502171919872342/?ti=cl

Por Priscila Saldanha - Doula, Consultora Perinatal e Terapeuta Integral Sistêmica

2 comentários sobre “Os Medos do Parto

  1. Andiara disse:

    Nossa medo é pouco! Encho os olhos de lágrimas só em pensar na hora do parto.
    Como foi citado acima, medo de não conseguir, de não suportar a dor, medo dos profissionais pelos quais serei atendida( sus).
    E por aí vai, tenho lido bastante a respeitos de PN, na tentativa de que o conhecimento sobre o assunto me de segurança para ter um bom parto. Bem, se tiver mais materiais que possa me ajudar agradeço.

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