“Esse Bebê Não Vai Nascer, Não?” – Dez Dicas Práticas Para o Final da Gestação | Por Adele Doula

O final da gestação é naturalmente um período de muita ansiedade para a mulher e seus acompanhantes. A chegada do bebê significa uma mudança radical na vida de todos e esse momento é esperado com muito entusiasmo e uma pontinha de medo. Quando a data se aproxima, é comum ouvirmos as mulheres perguntando coisas do tipo: “como eu posso saber quanto tempo falta?“”como eu posso ajudar o parto a começar logo?” Então, hoje, resolvi trazer algumas dicas práticas para ajudar nesta reta final.

Espero que gostem!

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Dica n°1: Não se apegue à data provável de parto (DPP)

A DPP (data provável de parto) é uma aproximação. Não existe maneira de saber exatamente a data da concepção (mesmo quando se sabe a data da relação sexual, pode haver uma diferença de horas ou até dias entre a relação e a concepção).

O Ultrassom pode ajudar, quando feito precocemente (antes de 8 semanas). Nesse período, o feto ainda tem uma cauda, que vai diminuindo até desaparecer, e é ela que permite situar a gestação em uma data. Depois que a cauda desaparece, o feto já tem formato de bebê e passa a crescer e desenvolver seus órgãos internos, e então as diferenças individuais podem interferir no cálculo da DPP. Tem bebês que são maiores e outros menores, uns crescem mais rápido, outros engordam mais… questão de biotipo mesmo. Alguns bebês amadurecem mais rápido, enquanto outros podem precisar de mais alguns dias, ou até semanas na barriga!

É por causa de todas essas variáveis que a DPP é um intervalo de tempo, e não uma data específica. Segundo o Colégio Americano de Obestetras e Ginecologistas (ACOG), é assim que se classificam os bebês nascidos no intervalo conhecido como “a termo” (entre 37 e 42 semanas):

DPP acog

Para Saber Mais:
Como calcular a data provável do parto? – Post super completo de Aláya Dullius

Gráfico_GAUSS_DPP

De acordo com o ACOG, 60% dos bebês nascem entre as 39 e as 41 semanas de gestação. 15% dos bebês nascem entre 41 e 42 semanas de gestação e uma média de 2,5% dos bebês pode inclusive passar desta data!

IG DPP
Fonte: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10201819976116378&set=a.10202570027987206&type=3&theater

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Dica n°2: Lembre-se: não é possível saber se o bebê já está pronto para nascer antes do trabalho de parto começar

Infelizmente (ou felizmente?), o trabalho de parto ainda é um evento que detém muitos mistérios. O que desencadeia o trabalho de parto ainda não foi totalmente explicado. As teorias mais recentes apontam que é o bebê quem determina o início do trabalho de parto: a partir do amadurecimento de seus pulmões e de suas glândulas supra-renais, o feto passa a liberar hormônios na corrente sanguínea da mãe, que são os responsáveis pelo início do trabalho de parto. Assim, o trabalho de parto é um indicador de que o bebê atingiu a plena maturidade pulmonar. Não é possível observar pelo ultrassom essa maturidade pulmonar, nem através de nenhum outro meio. O trabalho de parto é o único verdadeiro indicador de que o bebê já está pronto para nascer.

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Dica n°3: Não tente prever quando e como será o início do trabalho de parto

Prever o início do trabalho de parto é impossível, simplesmente porque existe uma quantidade imensa de sinais que variam muitíssimo de mulher para mulher. Algumas mulheres têm dias e dias de contrações de treinamento e cólicas, têm alarmes falsos, dores e cãibras na virilha, sentem o bebê encaixando no quadril, sentem o intestino soltar alguns dias antes do parto, perdem o tampão mucoso, sonham com o parto… outras não têm absolutamente nenhum sinal antes do parto (pródromos), e engrenam diretamente no TP.

Algumas mulheres apresentam afinamento do colo uterino ou têm alguns centímetros de dilatação antes do parto, outras não têm absolutamente nenhuma alteração do colo uterino antes do parto. Por isso que não adianta nada fazer toque toda semana para ver “como está o colo”, porque independente de como esteja, grosso ou fino, posterior ou centralizado, com zero ou 1/2/3 cm de dilatação, isso não dá nenhuma informação quanto ao tempo que falta para engrenar realmente o trabalho de parto (trabalho de parto engrenado = contrações ritmadas).

Algumas mulheres perdem líquido (rompimento da bolsa) antes das contrações sequer começarem, para outras ela se rompe durante o processo de dilatação, e para outras ainda a bolsa não se rompe até o bebê nascer (bebê empelicado).

E é por tudo isso que não é interessante ficar comparando a sua experiência com a de outras mulheres, ou esperando vivenciar as mesmas sensações que você leu nos relatos de partos, ou até mesmo comparando sua experiência de parto atual com suas experiências de parto passadas, pois a experiência de cada mulher em cada parto é absolutamente única e imprevisível. Se entregue, viva esse momento em sua plenitude, sem tentar decifrá-lo nem compará-lo com nenhum outro. Aproveite-o!

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Dica n°4: Desenvolva a sua habilidade para lidar com as cobranças

Uma das queixas mais comuns das mulheres no finalzinho da gestação são as cobranças para que o bebê nasça logo. Familiares, amigos, colegas de trabalho, têm a péssima tendência a ficar ligando e mandando mensagens (às vezes todos os dias, várias vezes ao dia) para perguntar se a gestante está sentindo algo, se tem certeza que vai esperar, se não está colocando o bebê em risco, etc. Essas cobranças fazem muito mal às mulheres, que já se sentem naturalmente ansiosas com o parto, e muitas vezes são oriundas da preocupação e falta de informação das pessoas que cercam a mulher grávida.

É importante ter uma rede de apoio, presencial e/ou virtual, e contar com o apoio presencial de pessoas que não fazem este tipo de cobrança, pelo contrário, que compreendem e encorajam a decisão da mulher de esperar pelo trabalho de parto, como uma Doula, por exemplo. É também muito importante compartilhar com a família, sempre que possível, os motivos que levaram a mulher a optar por esperar o parto natural.

É interessante em alguns casos fazer um encontro com a Doula e/ou a equipe contratada para acompanhar o parto e a família, para falar sobre as diferentes maneiras de apoiar a mulher nessa hora, minimizando a sua ansiedade ao invés de aumentá-la. Outra maneira de incluir e informar os familiares e amigos é convidando-os a participar de encontros de gestantes, onde poderão conversar com mulheres que já passaram pela experiência, assim como tirar suas dúvidas com Doulas e outros profissionais da área.

Em alguns casos, infelizmente, a mulher não encontra apoio na família e nos amigos. Nesses casos, o melhor é não entrar em discussões acaloradas que podem gerar um estresse desnecessário na reta final da gestação e treinar a famosa “cara de alface“.

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Dica n°5: Proteja a sua privacidade

O parto é um evento íntimo, que envolve muita entrega e requer um ambiente protegido, onde a mulher-mamífera se sinta confortada, amparada e segura. Por isso, na maioria dos casos, as mulheres buscam que este momento aconteça com o máximo de privacidade, e com o menor número possível de pessoas. Isso às vezes pode gerar tensões na família e com os amigos, pois algumas pessoas vêem o parto com um evento familiar ou como uma celebração, e não entendem a necessidade de solidão de certas mulheres.

Para evitar estresses desnecessários, algumas mulheres mentem a data prevista para o parto, apresentando a data de 42 semanas como se fosse a DPP (40 semanas). Outras iniciam um processo progressivo de introspecção, se afastam das redes sociais, respondem menos a telefonemas e mensagens, já deixam amigos e familiares avisados de que a partir de agora precisam de mais tempo para si mesmas e para dedicar integralmente à espera de seu bebê. Já vi até casos extremos de mulheres que mentiram sobre o local onde teriam seus bebês, caso a família não aguentasse esperar e decidisse aparecer por lá!

Para uma mulher que deseja um parto natural e não conta com o apoio dos amigos e familiares, quanto mais ela se resguardar de divulgar informações detalhadas sobre seus planos, melhor!

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Dica n°6: Despeça-se da barriga

Às vezes as mulheres ficam tão ansiosas com o final da gestação, que se esquecem de curtir o barrigão. Sim, eu sei, no final a gestação é cheia de desconfortos, achar posição para dormir não é fácil, e geralmente nesse momento a gestante já não aguenta mais estar grávida (9 meses é muito tempo!). Mas é importante lembrar de uma coisa: 2, 3 semanas passam rápido, e podem se passar anos antes da mulher poder sentir novamente dentro dela um bebezinho se mexendo. Quando converso com as mulheres após alguns anos do nascimento de seus bebês, elas sempre dizem que sentem muita saudade desses últimos momentos da gestação. Por isso, as últimas semanas da gestação não são um momento para se entregar à ansiedade, e sim um momento para aproveitar intensamente cada segundo. E documentar. É um momento muito bacana para tirar fotos e fazer vídeos da barriga se mexendo, da gestante dançando, dela relatando como se sente, etc. para que mais tarde esses momentos possam ser recordados.

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Dica n°7: Comece a criar um clima de ocitocina

A ocitocina é o principal hormônio do trabalho de parto. Ela também é carinhosamente chamada de “hormônio do amor” pois faz parte integrante de nossas relações sociais, sendo liberada em momentos de entrega e confiança, como conversas agradáveis, abraços, carinhos, mostras de confiança e durante a relação sexual. A ocitocina é um hormônio que tem um efeito muito contagioso, ela promove as interações sociais e a sensação de vínculo (carinho, amor e apaixonamento).

As últimas semanas antes do parto são um momento ideal para começar a criar um clima “ocitocinado” em casa. É um período muito bom para o casal passar momentos juntos, namorar, conversar, sair para passear, etc. É inclusive um bom momento para fazer amor! O sexo nas últimas semanas antes da gestação pode ajudar a preparar o corpo para o parto, pois o esperma contém prostaglandinas, que ajudam o colo do útero a amolecer e dilatar, e o orgasmo produz contrações uterinas, que podem ajudar o trabalho de parto a engrenar.

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Dica n°8: Conecte-se com seu bebê

Durante a gestação, mãe e filho estabelecem uma relação simbiótica muito intensa. A mãe sente o filho dentro dela, adivinha ele, compartilha de seus sentimentos a partir da troca de hormônios na corrente sanguínea. É uma conexão muito íntima e é uma relação que vai mudar radicalmente uma vez que o bebê estiver do lado de fora. Uma vez cortado o cordão, ambos estarão separados e deverão se comunicar de outras formas, novas formas. Será um mundo de descobertas e eles irão se descobrindo mutuamente. Mas é bacana aproveitar as últimas semanas da gestação para conversar muito com o bebê e explorar ao máximo essa relação que está por ceder lugar a outra.

Explicar para o bebê o que vai acontecer no parto, como ela deseja que este momento transcorra, escrever uma carta para si mesma ou para o bebê, desenhar o parto desejado, meditar ou fazer rituais para o recebimento do bebê, como Chás de Bênçãos e Despedidas da Barriga por exemplo, são recursos que ajudam muito a tranquilizar a mãe, estimulam a produção de endorfinas e ocitocina e permitem reforçar ainda mais este vínculo já tão poderoso. (A Rede Ocitocina oferece oficinas vivenciais que são ótimas para auxiliar nesse processo de conexão consigo mesma e com o seu bebê. Confira nossa agenda de eventos)

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Dica n°9: Se necessário, ajude um pouco seu corpo

Existem maneiras de tentar ajudar o parto a engrenar e evoluir mais rápido, mas a verdade é que nenhuma indução, nem as medicamentosas, funcionam quando o bebê ainda não está pronto.

Alguns dos métodos mais utilizados para tentar estimular o início do trabalho de parto são os 3 Hots (banho quente, comida picante e sexo), os chás (chá de canela/ chá da Naoli), e as atividades físicas leves, como caminhar, nadar e dançar. Geralmente é indicado começar a utilizar estas técnicas quando o corpo começa a dar os primeiros sinais de que está se preparando para entrar em trabalho de parto (pródromos: contrações fracas e irregulares, cólicas como cólicas menstruais, sensação de quadril se abrindo, perda de tampão) ou então quando a gravidez passa das 41 semanas de gestação. Antes das 41 semanas, o ideal é só aguardar o trabalho de parto se iniciar espontaneamente  mesmo, se mantendo ativa, alimentada e descansada.

O estímulo dos mamilos e a digitopressão ou acupressão podem ser feitos em casa pela própria mulher para auxiliar a intensificar as contrações do útero. Também é possível usar acupuntura e moxabustão, porém estas técnicas precisam de um profissional habilitado para aplicá-las.

Mais recentemente, se tem falado bastante nos grupos de apoio ao parto normal sobre a ingestão de tâmaras como forma de auxiliar no trabalho de parto. De acordo com as evidências disponíveis sobre o assunto, a ingestão de pelo menos 6 tâmaras ao dia a partir da 35° semana de gestação está associada com partos mais rápidos, porém não se comprovou efeito de indução do parto com a ingestão de tâmaras.

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Dica n°10: Abdique do controle

Muitas mulheres relatam que foi só quando elas “desistiram” de tentar forçar o trabalho de parto a começar que ele de fato começou. Em alguns relatos, as mulheres contam que desistiram de entrar em trabalho de parto, chegaram a marcar suas cesáreas e então entraram em TP espontaneamente. Parece que quanto mais se pensa nisso, quanto mais se foca no trabalho de parto, mais ele “foge” da gente… E é um desafio enorme não esperar ansiosamente por cada sinal de iminência do trabalho de parto, principalmente quando se passa das 40 semanas de gestação e parece que o mundo inteiro está focado em cada contração de treinamento do seu corpo!

O fato é que não existem maneiras de prever nem controlar quando acontecerá o parto e como ele vai evoluir. O parto não está nas mãos da mulher. Para parir, ela vai precisar aceitar isso e se entregar ao processo do parto como ele vier. Ela terá que abdicar do controle, e isso é um grande desafio. Acredito que seja o maior desafio da maternidade para muitas mulheres: com a chegada do bebê, muitas coisas não poderão mais ser controladas. O momento do parto e as semanas que o antecedem são um grande aprendizado para a maternidade, é o momento onde a mulher precisa se conectar consigo mesma e aceitar que ela não está no controle, e se entregar. Se entregar para o “ser mãe“. Sem relógios, sem barreiras, sem limites…

AMANDA GREAVETTE (7)

“The Birth Project” Amanda Greavette

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Fontes:

Por Adele Valarini, Doula e Consultora Perinatal

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