Se nós podemos gestar, nós aguentaremos parir.

Todas as vezes em que vejo alguém falando sobre as dores terríveis das contrações e do trabalho de parto e – pior – tentando comparar essa dor a qualquer coisa ruim eu me pergunto a troco de quê essa pessoa está tecendo aquele comentário.
Sinto muitíssimo por quem desiste de parir por medo da dor.
Se é mesmo para comparar, seria como nunca brincar na neve por ela ser fria, ou nunca saborear um abacaxi por medo dos espinhos ou até como nunca chegar perto do mar por medo das correntezas.
Tem jeito para tudo, para parir também tem.
Se para brincar na neve precisa de roupas adequadas, para o parto é preciso uma psique adequada.
A dor não é a mesma de quebrar dezenas de ossos ou adoecer.

spiral

Birth art Spirit&Sol Catie Atkinson

O parto não é uma manifestação de algo de errado, portanto, quando falamos da sensação só usamos a palavra ‘dor’ por falta de outra melhor.

Dor é do que chamamos todas as sensações muito intensas e atípicas do corpo. O trabalho de parto é tão fantástico que traz essa intensidade toda em intervalos. Não surgem repentinamente. As contrações de treino ficam mais frequentes até ficarem mais doloridas e quando você menos espera – o que era muito intenso ficou fraquinho comparado ao que você sente agora. A dor pede licença, tem início tem meio e tem fim. Ela aumenta e diminui até passar.
E assim vai indo… você, sem perceber, vai se superando. A noção de tempo vai sumindo. A dilatação vai aumentando. Essa dor não é uma dor qualquer, é sua força sendo construída.
É uma linguagem nova com o seu corpo, um país desconhecido, um universo à parte. É uma prova atrás da outra, mas com tempo para você recuperar o fôlego, com tempo para seu corpo passar de nível para aguentar ainda mais.
A prova final, que muitas infelizmente não chegam a sentir, é a saída. Essa saída que dura menos de um minuto faz todas as horas e dias de dor valerem a pena. É a sensação mais deliciosa que o corpo pode sentir.
É o mais próximo de divindade que você chegará na vida.

Sim, eu consigo. [Birth art Spirit&Sol Catie Atkinson]

Se eu soubesse como esse breve momento era gostoso, não teria pedido analgesia aos 9cm (tão pertinho…) no meu primeiro parto. No segundo pude sentir em todo o corpo o prêmio que é o expulsivo. 

Eu não me culpo, na época eu não sabia. Nunca tinha ouvido alguém falar que parir sem a tal da peridural era melhor. Eu culpo os inúmeros filmes e pessoas falando de analgesia como se fosse um adorno no vestuário. Como se não fosse mudar grandes coisas e como se,  no fundo, nós mulheres não aguentássemos até o final.

Pois hoje eu digo aqui, nesse canal onde eu posso me expressar livremente: eu não trocaria nunca mais a experiência de sentir aquelas dores. Elas me transformaram.

Se um dia eu já me julguei fraca eu pude revisitar e alterar completamente o que eu acreditava sobre mim. Eu soube por causa daquelas dores o quão sagrado é ser mulher. As contrações não são vilãs.
Se te convenceram do contrário eu te convido a repensar comigo.
De que adianta maldizer essa dor? Para que existamos, precisaremos parir, gestar e parir novamente. Para quê amedrontar todas as mulheres que irão dar continuidade à humanidade? Não é muito melhor encorajar? Não é muito melhor dar liberdade a uma mulher em trabalho de parto para que ela consiga conversar com o seu corpo? Ela vai conseguir se ela estiver se sentindo em controle.
Porque se nós podemos gestar, nós aguentaremos parir.
Nosso corpo é bênção que gera e traz vida ao mundo.
As contrações são a mágica que nos eleva a um plano espiritual porque trazer vida nunca será um ato banal.

Por Yohanna Cordeiro, Doula e Consultora Perinatal

2 comentários sobre “Se nós podemos gestar, nós aguentaremos parir.

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