Puerpério é Solidão

Me disseram para estocar comida. Me falaram para estabelecer bem uma rede de apoio. Me contaram que amamentar daria tanto sono quanto o início da gestação. Me sugeriram dormir quando o bebê dormisse. Me falaram de absorventes e fraldas para meus lóquios. Me falaram para lavar as roupas golfadas e com cocô o mais rápido possível.

Todos se esforçaram para me dar conselhos inéditos e muito úteis.
Agradeço por isso.

No entanto, o que mais me pegou de surpresa ao parir pela primeira vez foi o sumiço repentino dos grandes amigos. Todos adoravam pegar na barriga. Muitos foram ao chá de bebê. Alguns foram ao hospital. Poucos visitaram em casa.
De repente, depois de uma ou duas fotos com o bebê… sumiram. Não falamos o suficiente de baby blues, depressão pós parto ou psicose puerperal, mas não falamos nada sobre o muro involuntário que se cria entre mães e amigos da mãe logo que ela dá a luz, principalmente se ela for a primeira do circulo de amizades a ter filho.

A definição oficial de puerpério é: Período em que a mulher se recompõe da gravidez.
Inicia logo após o parto do bebê e da placenta e dura até a menstruação voltar a se regularizar.
Para muitas, os famosos 40 a 45 dias. Em estudos mais recentes, no mínimo um ano para o corpo fisicamente voltar a como era antes da gestação.
O que senti ambas as vezes foi que se passavam 40, 70, 100, 300, 500 dias e não me sentia “recomposta”. O lóquio cessava. A neném não me dava tanto trabalho assim. A rotina fluía. MAS: não existia mais vida social. Não por causa da amamentação, nem por causa de noites mal dormidas. A questão mesmo era da integração de mães nos programas de lazer. Não tinha mais espaço para mim no meu mundo antigo.
Exemplo clássico:
Logo depois de passar mais de um mês organizando UMA saída, esquematizando algumas horas para alguém ficar com a neném e uma semana ordenhando para darem leite na minha ausência, ainda assim há quem me encontre na rua e diga
– O que você está fazendo aqui?
– Cadê sua bebê?
– Esqueceu que é mãe?

Por favor, não tire os breves momentos de independência e prazer de uma mãe jogando um amontoado de culpas (sexistas) nela.
Pode ter certeza que ela está tentando ao máximo relaxar e está vivendo umas duas horas de conflito interno extremamente severo.

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[Foto da minha primeira noite como mãe, em 2011, com a Michelle fora da barriga]

A cabeça fica a mil e não tem quem nos acolha direito nesse momento porque estão todos tentando nos pôr “no nosso lugar”.
Pelo menos é assim que me sinto.
Então solidão é o termo que resume. 
Sendo ao não receber visitas, não aparecer nas fotos ou ao não poder sair tranquilamente… na minha percepção, puerpério dura muito mais 40 dias, mais do que as três fases do pós parto, mais que oito semanas, um trimestre ou um ano. Dura uma (falta de) vida social inteira.
Dura o tempo necessário para que a mãe lembre que ela é também um ser humano.

Por Yohanna Cordeiro - Doula e Consultora Perinatal.
Ao compartilhar, utilize as opções do site. A cópia e reprodução integral ou de qualquer trecho desse texto não está autorizada sem que haja link direto para o original e créditos à autora.

4 comentários sobre “Puerpério é Solidão

  1. Bruna Francine disse:

    Muito verdadeiro o texto, e como é difícil!
    Porem, sorte ou não, fui agraciada por amigas que não se afastaram e inclusive planejam os passeios com horários adaptados a rotina das crianças e até mesmo lugares que elas possam ir, mesmo que não seja lugares que antes eram nossos preferidos.
    Em três meses consegui sair sozinha com meu marido uma vez, e com uma tortura interna muito grande, porque meu bebê não pega leite nem em colher, nem seringa, nem nada além do peito, olhava pro relógio toda hora e pro celular de segundo em segundo pra ver quando a avó ia ligar. Acabou que voltamos antes, pq o pai também ficou preocupado. Mas os poucos minutos que conseguimos tirar os “pais” e deixar o “casal” fluir foi muito bom. Outra coisa que me ajuda é nunca se importar com o que os outros dizem, isso já é meio natural em mim, então não incomoda mesmo que me olhem torto. Isso tem ajudado. Sem contar que a rede de apoio que busquei na nossa região é grande, então mesmo quando não tem ninguém, vou lá nos grupos, mundo msg é sempre tem alguém na mesma situação é que me faz sentir abraçada.
    Porém, tem horas que absolutamente sem motivo nenhum vem a culpa por tudo e por nada, uma solidão, um desespero, e aí não há mãe, rede de apoio, marido ou amigos que façam sair essa angústia, só eu mesma quando consigo olhar pra dentro de mim e me redescobrir (mais um vez) mãe.

    Curtido por 1 pessoa

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