Estou Grávida, e Agora? – O Passo-a-passo Até o Parto | Por Adele Doula

A descoberta da gravidez é um momento marcado por emoções fortes e ambivalentes, oscilando da euforia ao pânico total! Com a chegada de um novo membro na família surgem novas dúvidas e dilemas na vida da mulher. Diante dela, abre-se todo um novo mundo, ainda desconhecido e que rapidamente se revela amplo e complexo: o mundo da Maternidade.

Planejar o nascimento e a chegada do bebê é uma tarefa árdua que ocupa plenamente os nove meses de gestação. A seguir, veja suas principais etapas:


Primeiro passo: encontrar uma equipe de saúde (de preferência Humanizada)

É o primeiro passo mas também o mais dificultoso: algumas mulheres passam praticamente a gestação inteira procurando uma equipe adequada, que as trate com respeito e carinho e confie em sua capacidade de parir naturalmente, sem intervenções desnecessárias.

Quem são os membros da equipe?

  • o Médico Obstetra (GO), que será responsável pela saúde da mãe e do bebê durante todo o pré-natal orientando, pedindo exames e encontrando-se com ela em consultas mensais. Algumas mulheres fazem questão de ter o mesmo médico do pré-natal no dia do seu parto, o que significa um investimento financeiro considerável já que tanto o SUS quanto os convênios cobrem apenas partos no plantão;
  • o Pediatra Neonatologista, que no dia do parto será responsável pelos primeiros cuidados com o bebê no hospital. Ainda não é possível entrar com pediatra particular na maioria das maternidades brasileiras: o pediatra que faz o atendimento ao recém-nascido é necessariamente o plantonista;
  • a Enfermeira Obstetra (EO) e a Obstetriz (parteira urbana), que cuidam da saúde das mulheres com gestações baixo risco – risco habitual – durante o pré-natal, o parto e o pós-parto. As EO e Obstetrizes podem atender partos de risco habitual em ambiente hospitalar, em Casas de Parto ou na residência da mulher.

Segundo a recomendação do Ministério da Saúde o pré-natal deveria ser acompanhado por EO/Obstetriz e médico obstetra juntos, dentro de um modelo multidisciplinar (alternando mensalmente uma consulta com o médico e uma com a EO/Obstetriz) e a gestante de risco habitual deveria ser acompanhada preferencialmente por uma EO/Obstetriz durante seu parto, sendo o médico obstetra acionado apenas em casos de gestações e partos de alto risco e na ocorrência de intercorrências, quando sua experiência e técnica são medicamente necessárias. Infelizmente, essa ainda não é a realidade da maioria dos hospitais nem da maioria das equipes.

A escolha de uma equipe que atenda de forma humanizada, respeitosa, garante que a mulher tenha a segurança de estar sendo bem acompanhada em caso de qualquer intercorrência ao longo de sua gestação ou parto. É essencial que a mulher conheça bem – e confie – na sua equipe de saúde, pois o trabalho de parto necessita de um estado mental de completa entrega e tranquilidade, o que é dificultado quando pessoas desconhecidas ou com as quais a mulher não tem bom vínculo adentram a cena de parto.

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A Rose, mãe da Mel, teve o acompanhamento de uma equipe multidisciplinar durante a sua gravidez, parto e pós-parto: Adèle (Doula) – à esquerda, Carol (EO) com a linda Mel no colo, Rose e Luis Otávio (GO) – à direita | Imagem: arquivo pessoal


Segundo passo: escolher a sua Doula

A Doula é uma grande aliada da mulher e de sua família durante a gestação, pois traz muitas informações relevantes e ajuda a reduzir significativamente os níveis de ansiedade. Quanto mais cedo a Doula entra na vida da mulher, melhor! Muitas vezes a Doula acompanha até mesmo mulheres que desejam engravidar e que já estão à procura de uma equipe bacana, afinal as Doulas trabalham nesse meio e conhecem muitos profissionais!

A função da Doula consiste em prover apoio físico, emocional e informacional individualizado desde a gestação e até o pós-parto, e ela não exerce nenhuma função técnica propriamente dita no pré-natal nem no acompanhamento ao parto. No momento do parto, a Doula oferece apoio presencial contínuo e faz uso de recursos não-farmacológicos para auxiliar a mulher a vivenciar o parto da forma mais satisfatória possível.

Por sua experiência, conhecimento e sua atuação baseada em evidências científicas as Doulas transmitem segurança para a mulher e sua família, auxiliando na preparação para a chegada do bebê. Muitas Doulas também organizam Rodas de Gestantes que permitem às mulheres criarem uma rede de apoio emocional e de partilha de vivências e experiências, o que tende a deixá-las mais seguras e reduzir sua ansiedade.

Escolher uma Doula é como escolher um namorado: às vezes são necessários encontros com várias até que se encontre a Doula ideal para você. O mais importante é ter empatia, é o santo bater. A Doula está lá para dividir os momentos felizes e as expectativas da mulher grávida, mas também suas angústias, medos e preocupações. A mulher deve se sentir à vontade para ligar para a Doula e poder contar com sua presença sempre que for preciso.


Terceiro passo: começar a frequentar uma Roda de Gestantes

Participar de uma Roda de Gestantes (presencial ou virtual) é muito importante, sobretudo se a  mulher está planejando um Parto Natural. A convivência com outras mulheres que já passaram pela experiência da gravidez, do parto e do puerpério é extremamente enriquecedora, ajudando a fortalecer a confiança da mulher em sua decisão diante das inevitáveis dúvidas, inseguranças e adversidades que surgem ao longo da gestação.

Em uma sociedade na qual mais de 50% dos bebês são nascem por Cesariana, o Parto Normal não é mais tão normal assim… e nem tão fácil de se conseguir! Entre histórias relatadas por próximos (e às vezes nem tão próximos), a mídia mostrando imagens assustadoras de partos terrivelmente traumáticos (até para quem assiste) e pessoas pressionando abertamente a mulher para a escolha pela cesárea, é difícil manter a determinação de ir adiante com o parto da maneira que ela deseja. A existência acolhedora de uma Roda de Gestantes é, para muitas mulheres, um fator determinante no empoderamento para o Parto Natural.

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Roda de Gestantes da Rede Ocitocina, no CCBB | Imagem: Veloso Valentim


Quarto passo: começar a pensar, planejar e preparar-se para o parto

Quanto antes a mulher começar a pensar sobre o que deseja para o seu parto e se informar sobre as possibilidade de conseguir o que quer, melhor! Conhecer os seus direitos e as recomendações da OMS no atendimento ao Parto Normal já é um bom começo!

É recomendado que a mulher faça um Plano de Parto durante a gestação. O Plano de Parto não é uma garantia de que todos os seus desejos serão atendidos, mas sua elaboração permite que esses desejos sejam discutidos com a equipe de saúde e que, assim, chegue-se a um consenso a respeito do atendimento ao parto. O planejamento do parto em detalhes a partir do Plano de Parto também permite que a mulher visualize melhor como será o seu parto e se sinta mais tranquila e em controle da situação.

A preparação para o parto é uma preparação completa: é necessário que a mulher cuide de sua alimentação e de sua saúde física, de preferência contando com a ajuda de profissionais especializados, mas também deve haver uma preparação emocional e psicológica para o parto. Essa preparação passa pela leitura de relatos de parto e puerpério e de textos que explicam as alterações e sensações naturais destas fases, mas também pela visualização de vídeos de partos humanizados, que permitem ir aos poucos desmistificando a dor e criando uma imagem inconsciente mais positiva do parto.

A preparação psicológica para o parto é um processo longo e complexo e que requer de muito apoio para que a mulher possa confrontar de frente seus medos, ansiedades e dúvidas com relação a si mesma e a esse novo papel que ela está prestes a assumir. É papel da Doula oferecer suporte emocional, espaços de acolhimento e ferramentas à mulher durante esse processo de transição para a maternidade, porém algumas mulheres e seus familiares podem necessitar recorrer também à ajuda de um profissional especializado, como um psicólogo ou psiquiatra, pois a gravidez, o parto e o puerpério podem trazer à tona questões importantes que estavam profundamente enterradas no inconsciente.

Algumas mulheres relatam que só mesmo em seu segundo ou terceiro filho estavam plenamente preparadas para a experiência de vivenciar o parto e – sobretudo – o puerpério, por isso é importante começar a pensar e se informar sobre esses momentos o mais cedo possível!


Quinto passo: fazer visitas e escolher o ambiente de parto

Uma das propostas da Rede Cegonha é que a mulher grávida usuária do sistema público de saúde (SUS) seja informada desde o início do pré-natal sobre o local onde ocorrerá seu parto. Para as mulheres que possuem convênio ou se dispõem a pagar pelo seu parto, existe a opção de escolher a maternidade ou hospital no qual ela se sinta mais confortável para trazer seu filho ao mundo. Além disso, algumas cidades contam hoje com Casas de Parto e existe também a possibilidade de se optar por um parto domiciliar planejado. Como saber qual dessa opções é a melhor para você?

Fazendo visitas aos diferentes locais, conhecendo e conversando com os diferentes profissionais, fazendo perguntas e mostrando seu Plano de Parto (as reações dos profissionais diante do Plano de Parto podem ser reveladoras). Conhecer bem as diferentes opções permite fazer uma escolha informada do melhor ambiente de parto para a mulher e sua família.

Não hesite em visitar o mesmo local várias vezes se sentir necessidade: o local de parto deve ser um lugar no qual a mulher sinta à vontade, confortável e segura, tanto no caso de tudo correr bem quanto no caso de acontecer algum imprevisto. Ela deve se sentir segura para circular pelo ambiente, falar com as pessoas e deve ser informada de todos os procedimentos da equipe/instituição (os de rotina e os que são feitos em casos de emergência).

Mesmo no caso de um parto domiciliar é importante conhecer com antecedência o hospital para onde será feita uma possível transferência, caso venha a ser necessária. Quanto melhor a mulher conhecer todas as suas opções, mais segura ela se sentirá.


Sexto passo: preparar a família

A família pode ser uma grande aliada durante a gestação, o parto e o puerpério, ou pode acabar se revelando um grande empecilho! Cada membro da família passa por seu próprio processo de transição durante a gravidez da mulher, que mexe com questões inconscientes e desperta conteúdos psíquicos “adormecidos” em cada um.

Há um desejo muito grande de ajudar a mulher grávida e muitas vezes os familiares o fazem da maneira que conseguem: oferecendo opiniões, dando exemplos de si mesmos e de outros, fazendo as coisas pela mulher, etc. Em geral as intenções são as melhores, mas a forma de fazer pode acabar incomodando a gestante… Uma boa abertura de diálogo é muito importante para que a família consiga auxiliar a mulher da melhor forma, da forma que ela deseja ser ajudada.

É importante que a família se prepare também para a chegada do bebê: as pessoas mais próximas da mulher devem procurar se informar a respeito dos processos naturais da gestação, parto e puerpério e se possível participar das consultas de pré-natal, dos cursos de preparação para o parto e o puerpério e das Rodas de Gestantes junto com a mulher.

Ver os vídeos e ler os textos que inspiraram a mulher a tomar as decisões que tomou a respeito do seu parto são excelentes iniciativas para os membros da família que desejam fazer parte deste momento e apoiá-la da melhor maneira possível.

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Mulheres grávidas e puérperas, companheiros, avós, irmãs, amigas, crianças, bebezinhos e bebezões: todos são bem-vindos nas rodas da Rede Ocitocina! | Imagem: Veloso Valentim


Sétimo passo: preparar o enxoval

A maioria dos bebês necessita de menos coisas do que os pais acreditam que precisam.

As primeiras semanas do puerpério são marcadas pela adaptação do bebê, de sua mãe e da família toda a uma nova rotina nunca antes vivida e pela definição de um estilo único de maternagem. Algumas mulheres perceberão que preferem ter seus filhos próximos a elas, na sua própria cama ou em um bercinho ao lado da cama e não precisarão de um berço em outro quarto; já outras famílias gostarão de colocar seus filhos desde o início em um quarto próprio; algumas mães escolherão fazer uso de sapatinhos, luvinhas, chupetas, mamadeiras, acessórios para a cabeça, etc. em seus filhos, enquanto outras escolherão não fazê-lo. Tudo dependerá da necessidade de cada bebê e do que parecer mais útil e confortável para a mãe nesse momento. Não há como prever isso com antecedência.

Muitas famílias investem bastante dinheiro em um enxoval lindo, maravilhoso e acabam não usando praticamente nada! Seja porque o bebê nasceu maior do que o previsto e aquela pilha de roupinhas tamanho RN já não servia, seja porque a mãe e o bebê se sentem melhor usando um sling do que um carrinho ou por que os objetos comprados não cumprem seu propósito de realmente facilitar a vida dos pais.

Não há necessidade de encher o quarto do bebê com ursinhos de pelúcia, brinquedos ou aparatos coloridos, luminosos e sonoros ainda durante a gravidez pois ele ao nascer ainda tem um cérebro muito imaturo para aproveitar tudo isso. Tudo que o recém-nascido quer, nas primeiras semanas de vida, é o colo e o peito da mãe, de preferência o tempo todo (como qualquer filhote de primata). Ele não se importa de ter o melhor carrinho do mercado, o bercinho X, Y, Z, tudo combinando ou nas cores apropriadas para seu sexo.

Antes de sair às compras durante a gravidez, lembre-se: você ganhará muitos presentes! Organizar festinhas de despedida da barriga e chás de bebês e participar de grupos de desapegos e trocas na internet podem ser boas maneiras de ganhar praticamente tudo o que se necessita nas primeiras semanas de vida do bebê sem precisar gastar um dinheiro que pode vir a ser necessário para o planejamento do parto e durante o puerpério.


Oitavo passo: preparar-se para o puerpério e a amamentação

Muitas mulheres não se preocupam realmente com a amamentação até as últimas semanas antes do parto, quando começam a se sentir ansiosas por ainda não estarem produzindo leite (fique tranquila: é absolutamente normal) e muitas param para pensar realmente no puerpério apenas quando já se encontram nele! É importante dedicar tempo ainda durante a gestação para a procura de informações a respeito do puerpério, do processo de amamentação e do desenvolvimento normal do bebê para evitar angústias desnecessárias na reta final da gravidez e principalmente nas primeiras semanas pós-parto.

Os seios não precisam de nenhuma preparação específica para a amamentação: eles mesmos se modificam durante a gestação, tornando-se mais escuros, resistentes e mais “saídos”. Muitas mulheres começam a produzir o colostro, que é o primeiro leite, ainda durante a gestação mas se isso não acontecer, não se preocupe: o colostro virá durante o trabalho de parto ou quando o seio for estimulado pela sucção do bebê, logo após o parto.

O leite mesmo só chega no terceiro ou quarto dia após o parto, quando os seios se enchem de leite em um fenômeno chamado apojadura. Muitas mães de primeira viagem ficam com medo de não terem leite suficiente para o bebê nos primeiros dias, pois não conhecem este fenômeno (não se preocupe: o colostro é suficiente para alimentar o bebê até a descida do leite, mesmo se ela demorar um pouco mais). Para muitíssimas mulheres, a apojadura vem acompanhada de bastante desconforto e de uma nova necessidade: a de aprender a ordenhar o leite em excesso.

Os primeiros dias após a chegada do bebê são como um tornado: cheios de novidades, com muita coisa para aprender simultaneamente e pouco tempo para fazer tudo, por isso é bom poder chegar nesse momento já informada e preparada. Poder contar com as orientações e o apoio de uma Doula experiente no manejo da amamentação ou de uma Consultora em Aleitamento Materno desde o primeiro dia de vida do bebê faz muita diferença!

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Espero que tenham gostado das dicas! Caso queiram acrescentar algo, deixem um comentário abaixo!

Por Adele Valarini, Doula e Consultora Perinatal

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