Tipos e Locais de Parto | Por Adele Doula

Quando falamos de tipos e locais de partos, muitas vezes nos deparamos ainda com uma certa confusão de conceitos: parto humanizado tem que ser em casa? Tem que ser na água? É possível um parto ser humanizado no hospital? Se tiver intervenção, deixa de ser humanizado? Hoje procurarei trazer mais informações para sanar essas dúvidas de uma vez por todas!

Espero que gostem!


Tipos de Parto

Quando falamos de tipos de partos, estamos falando da via de nascimento do bebê e da presença ou ausência de intervenções médicas.

O Parto Natural

O Parto Natural é aquele parto que acontece por via vaginal e no qual não ocorrem intervenções médicas, ou seja é o parto que se inicia espontaneamente e evolui no seu próprio ritmo, sem interferências externas no sentido de acelerar ou corrigir algo. Hoje em dia no Brasil, apenas uma minoria de partos são naturais, pois os protocolos obstétricos acabam levando a muitas intervenções de rotina.

O Parto Natural pode variar muito de mulher para mulher, e até mesmo a mesma mulher pode apresentar partos espontâneos muito diferentes uns dos outros. Ele pode ser muito rápido, durando menos de uma hora, ou ser muuuuuito longo, durando mais de dois ou três dias. Ele pode ser muito dolorido ou não apresentar quase nenhuma dor, pelo contrário, pode ser até prazeroso! A mulher pode ter contrações fortes e ritmadas como um reloginho, ou pode apresentar contrações irregulares ou curtas durante o trabalho de parto inteiro, e às vezes até mesmo apresentar pequenas pausas ou paradas de progressão. O bebê pode encaixar no quadril antes do parto ou ficar ‘alto’ até o expulsivo e só encaixar na hora de nascer. A bolsa pode se romper antes ou durante o trabalho de parto ou o bebê pode nascer dentro da bolsa sem que ela se rompa. Todas essas variações podem fazer parte de um Parto Natural e por isso é muito importante que a equipe que vai atender esse parto tenha um protocolo que permita todas essas variações.

O Parto Normal

A partir do momento em que o parto tem intervenções externas, ele passa a ser chamado de Parto Normal. No Brasil hoje em dia, esse é o modelo de parto que é ensinado nas universidades e é o tipo de parto que as mulheres vivenciam com mais frequência. Algumas intervenções são feitas de forma rotineira em algumas unidades hospitalares, como colocar soro intravenoso, estourar a bolsa ou deixar a mulher de jejum, outras são indicadas para corrigir situações que se consideram ser alterações anormais da evolução do parto.

Para muitos profissionais que têm uma visão mais tradicional, um parto mais longo ou um parto que apresenta contrações irregulares ou curtas já é uma situação que exige uma intervenção para corrigir aquele padrão que se considera ineficiente (distócia) e acomodar o parto ao que se considera uma evolução “normal” (adequada a uma norma). Os protocolos que determinam o momento de intervir e a forma de intervir podem variar bastante de profissional para profissional.

Algumas intervenções podem vir a ser necessárias para garantir a saúde da mãe e do feto, como induzir um parto quando a gestação evolui para um quadro de risco ou fazer uso de medicações na gestação ou durante o parto. Podem ser necessárias manobras para corrigir uma apresentação distócica do feto ou pode ser necessário o uso de fórceps ou vácuo extrator no expulsivo em algumas situações emergenciais.

Na maioria dos casos, em obstetrícia, existem diferentes alternativas de intervenções que podem ser utilizadas em cada situação, por isso é importante se informar bastante durante a gestação, conversar com o médico que está acompanhando sua gestação e com sua Doula e elaborar um plano de parto detalhando como você prefere que essas intervenções sejam feitas.

A Cesariana

A cesariana é uma cirurgia que tem extrema importância em obstetrícia. Ela consiste em remover o bebê cirurgicamente por via abdominal quando o nascimento por via vaginal não é viável. Graças à cesariana, é possível salvar vidas de mães e bebês que sem acesso a este recurso estariam condenados a um desfecho trágico. Porém, a cesariana tem sido utilizada de forma extremamente inadequada no Brasil, na maioria das vezes sendo indicada para mulheres que não precisam dela.

Existem dois tipos de cesarianas:

  1. as cesarianas eletivas (marcadas, agendadas fora do trabalho de parto);
  2. as cesarianas intraparto (que acontecem após o início do trabalho de parto).

A cesariana só é um procedimento benéfico quando tem real indicação médica. Quando feita sem necessidade, ela aumenta os riscos para mães e bebês em comparação com os riscos de um parto vaginal. A cesariana eletiva feita sem necessidade traz riscos que são muitas vezes minimizados na hora de apresentá-la como alternativa para as mulheres e isso faz com que muitas mulheres sejam manipuladas (quando não são coagidas) a escolherem fazer a cesariana, pois uma escolha não-informada não é uma escolha real.


Tipos de Assistência ao Parto

Renata_PartoHumanizado

“Humanizar é acima de tudo dar direito ao conhecimento e a escolha” | Imagem daqui

Quando falamos em parto humanizado estamos falando do tipo de assistência ao parto, e não de um tipo de parto.

Assistência Humanizada, atualizada ou respeitosa

O Ministério da Saúde recomenda que a atuação em saúde siga três pilares básicos:

  1. condutas baseadas em evidências científicas atuais, que devem ser constantemente atualizadas à medida que novas evidências vão sendo publicadas;
  2. atuação em equipe multidisciplinar, com autonomia e respeito assegurados para cada membro da equipe;
  3. um atendimento respeitoso do protagonismo do paciente, onde as decisões são tomadas conjuntamente entre a equipe e o paciente, o que requer que esse paciente esteja plenamente informado.

Quando a atenção segue esses parâmetros, considera-se que é uma assistência atualizada, respeitosa ou Humanizada (conheça a Política Nacional de Humanização de 2004).

É possível ter um parto com intervenções ou mesmo uma cesariana dentro de uma assistência humanizada? Sim, é possível. Mas para isso é necessário que a equipe esteja atualizada e a paciente, informada.

O modelo de atenção humanizada à gestação, parto e puerpério é um modelo em que todas as decisões, assim como a responsabilidade pelo desfecho final, são compartilhadas entre a equipe e a paciente. Dentro deste modelo, procura-se permitir a evolução do trabalho de parto da forma mais natural e espontânea possível e se faz uso restrito das intervenções médicas apenas quando são realmente necessárias.

Assistência desatualizada ou Violência Obstétrica

O atendimento que não segue as diretrizes do Ministério da Saúde é considerado uma assistência desatualizada e é enquadrado hoje em dia como Violência Obstétrica. A Violência Obstétrica também engloba situações de abusos físicos e verbais, além do desrespeito aos direitos da mulher.

É considerado Violência Obstétrica:

  • o uso de procedimentos desnecessários feitos de forma rotineira na mãe e no bebê;
  • o uso de procedimentos inadequados para a situação ou de procedimentos não indicados nunca (como a manobra de Kristeller);
  • o uso de procedimentos feitos de forma inadequada;
  • o uso de procedimentos dolorosos feitos na mãe ou no bebê como forma de punir a mulher;
  • o uso de procedimentos sem o consentimento livre e esclarecido da mulher;
  • a recusa de atendimento;
  • a recusa de fornecer recursos para alívio da dor;
  • a recusa de permitir a alimentação, a livre movimentação e a expressão de dor da mulher;
  • a recusa de permitir a entrada do acompanhante de escolha da mulher;
  • a separação mãe-bebê e o impedimento à amamentação sem justificativa;
  • ameças e coação;
  • xingamentos e comentários desrespeitosos;
  • tapas, puxões de cabelo;
  • imobilização, sedação sem indicação médica.

A Violência Obstétrica ainda é muito comum em todos os contextos da assistência obstétrica brasileira. Com roupagens diferentes, é verdade, mas está sempre presente. Para as mulheres mais ricas, ela se dá sob a forma de informações truncadas e comentários “quebra-pernas” que insinuam que é uma bobagem se submeter a um parto normal. A violência mais presente para as classes média e alta é a cesariana indicada sem necessidade real (agendada ou intraparto), muitas vezes indo diretamente contra os desejos da mulher. Para as classes menos abastadas é oferecido um modelo de atendimento ao parto desatualizado, iatrogênico (que causa danos) e intervencionista ao extremo, que é considerado por muitas como altamente traumático física e psicologicamente e é chamado pela maioria das mulheres de Parto Anormal.

Infelizmente, hoje em dia, a Violência Obstétrica ainda é tão comum que é possível encontrar relatos de mulheres que foram vítimas desse tipo de violência até mesmo por parte de profissionais que contrataram e pagaram particular! E o pior é que muitas dessas violências não são reconhecidas como violências por parte das mulheres que foram vítimas até muito tempo depois…

A maior arma contra a Violência Obstétrica é a informação: uma mulher bem informada e um acompanhante bem informado são capazes de lutar para defender seus direitos. Já uma mulher e um acompanhante pouco informados se tornam facilmente vulneráveis diante dos rígidos protocolos e do complicado vocabulário médico-hospitalar.

Caso você tenha sido vítima de Violência Obstétrica, não se cale, denuncie!
Veja aqui como fazer.

O parto sem assistência ou Parto Desassistido

Aqueles partos que acontecem sem que haja nenhum profissional habilitado a acompanhar partos por perto são chamados de partos desassistidos.

Existem dois tipos de partos desassistidos:

  1. os partos desassistidos “por acidente”, que em geral são partos muito rápidos em que os bebês acabam nascendo na rua, em casa, no carro, no saguão da maternidade ou até mesmo dentro do hospital, porém sem a equipe por perto. Nesses partos em geral o bebê nasce muito bem, ativo e em boa saúde e a mulher procura avaliação médica e pediátrica imediatamente após o parto (muitas vezes, ligando para o SAMU).
  2. os partos desassistidos planejados, em que a mulher escolhe não ter equipe consigo durante todo o trabalho de parto, parto e também após o parto. Esses partos apresentam mais riscos, pois intercorrências que seriam facilmente identificadas e resolvidas por uma equipe experiente podem tomar proporções desastrosas em um contexto em que não há ninguém apto a reconhecê-las e agir prontamente para a sua resolução.

Atenção! Doulas não são profissionais habilitadas para o monitoramento do trabalho de parto. O Ministério da Saúde recomenda que, a partir da fase ativa do trabalho de parto, mãe e feto sejam monitorados regularmente por um profissional habilitado para tal. Sendo assim, Doulas não podem permanecer sozinhas com a mulher em casa até o bebê estar quase nascendo e também não podem acompanhar partos desassistidos planejados, sob pena de estarem colocando a mulher e o bebê em situação de risco aumentado.
Profissionais aptos a oferecer assistência ao parto: médico obstetra, enfermeiro obstetra, obstetriz, parteira tradicional.


Locais de Parto

AMANDA GREAVETTE (11)
“O melhor lugar para o parto é aquele em que a mulher se sente mais segura” Ricardo Jones | Imagem: Amanda Greavette

Hospital

Hoje em dia a imensa maioria dos partos brasileiros ocorre em ambiente hospitalar. Hospitais são grandes instituições que empregam uma enorme quantidade de pessoas e recebem muitíssimos pacientes. Para viabilizar o atendimento, o hospital é dividido em diferentes setores especializados, com equipes específicas em cada setor e o paciente passa de um setor ao outro conforme o atendimento vai progredindo.

No caso do parto a mulher é recebida na emergência. Após avaliação, é colocada em um ambiente onde permanecerá durante a fase de dilatação do trabalho de parto (pode ser um quarto privativo, compartilhado ou uma enfermaria), sendo atendida por uma equipe. No momento em que a dilatação se completa, ela é levada para o centro cirúrgico ou centro obstétrico, que é outro setor, com outra equipe. Lá o bebê nasce em uma sala de parto (que é geralmente uma sala de cirurgia comum) com a equipe obstétrica e é submetido aos primeiros cuidados com a equipe de pediatria em uma salinha próxima. Depois disso a mãe fica em uma sala de recuperação dentro do centro cirúrgico até que esteja pronta para ir para o quarto, que fica em outro andar e onde será recebida por outras duas equipes: uma que será responsável por ela e outra pelo bebê.

Todos esses deslocamentos e mudanças de equipe exigem que o hospital coloque em prática protocolos rígidos que às vezes parecem até absurdos (como por exemplo: perguntar para a mulher se ela tem alergia a algum medicamento toda vez que ela muda de setor e de equipe), mas que são necessários para minimizar as chances de acidentes e erros médicos em um contexto em que uma mesma equipe deve dar conta de diversas, às vezes até de dezenas de pacientes ao dia.

Cada vez mais mulheres têm optado por contratar um médico obstetra particular para acompanhar seu parto hospitalar. Nesse formato de atendimento um para um é mais viável conseguir a flexibilização de alguns protocolos hospitalares, o que não é sempre possível num contexto de plantão. (Observação: não é possível entrar com um obstetra particular em um hospital do SUS.)

Centro de Parto Normal ou Casa de Parto

Centros de Parto Normal ou Casas de Parto são estruturas adaptadas às necessidades de um parto natural e portanto atendem exclusivamente mulheres que têm partos naturais oriundos de gestações de risco habitual. Elas costumam ser próximas ou até mesmo dentro dos hospitais para possibilitar a rápida transferência (de ambulância) das mulheres que desenvolvem intercorrências durante o trabalho de parto.

As Casas de Parto são compostas de salas PPP (pré-parto, parto e pós-parto), nas quais a paciente fica com total privacidade do momento da internação até o momento da alta médica, 24 horas após o parto. Nesta sala ela conta com um banheiro ao qual ela tem livre acesso com chuveiro, bola de pilates, música e outros recursos para auxiliar na evolução do parto natural e no controle não-farmacológico da dor. Algumas Casas de Parto possuem até mesmo banheiras para possibilitar o parto na água!

Nas Casas de Parto o atendimento costuma ser prestado exclusivamente por enfermeiros obstétricos e técnicos de enfermagem, não havendo a presença de médicos e pediatras. Os protocolos de atendimento das Casas de Parto são determinados pela Secretaria de Saúde e são pouco intervencionistas, prezando por um parto mais natural e com menos intervenções, porém o protocolo de triagem é bastante conservador, restringindo o atendimento apenas a mulheres que tenham tido uma gestação de risco habitual sem nenhuma intercorrência (as Casas de Parto não costumam aceitar mulheres que já tiveram uma cesárea prévia, nem que tenham o exame de strepto B positivo).

Caso a mulher opte por ter seu bebê em uma Casa de Parto, é importante que ela se informe a respeito dos pré-requisitos do local (que podem variar de acordo com a localidade) e é essencial que ela tenha um plano B já delineado caso ocorra algo de última hora que impeça sua internação (como estar há muitas horas com a bolsa rota ou dar o azar de chegar na Casa de Parto em um dia de lotação ou em um dia em que faltou um profissional no plantão e não estão internando ninguém).

Os Centros de Parto Normal intra-hospitalares costumam ser apresentados para as pacientes com o nome de Sala de Parto Humanizado e costumam ser mais utilizados pelas mulheres que estão acompanhadas por médicos particulares. Essas salas geralmente têm banheira, bola de pilates, cavalinho, música e oferecem a possibilidade de controle da luminosidade e temperatura pela paciente (diferentemente do centro cirúrgico comum). Geralmente elas são usadas como salas de partos comuns, ou seja: a mulher fica em um quarto aguardando a dilatação, quando esta está próxima dos 7 ou 8 cm ela vai para a sala de parto humanizado na qual permanece por algumas horas após o parto e depois é transferida para seu quarto definitivo. Desta forma, perde-se o propósito da sala PPP, que é justamente o de evitar deslocamentos e mudanças de ambiente da mulher em trabalho de parto e no pós-parto imediato. Em alguns hospitais, cobra-se uma taxa pelo uso destas salas.

Domicílio

O Parto Domiciliar não é uma novidade, já que até poucas gerações atrás todos os bebês nasciam em suas casas. Mas o Parto Domiciliar de hoje não é como os de antigamente… Em contexto urbano os partos domiciliares planejados (PDP) são geralmente acompanhados por equipes de enfermeiras obstetras ou de obstetrizes, na proporção de 2:1. Ou seja: duas profissionais aptas tecnicamente a acompanhar partos para uma paciente em trabalho de parto.

Esse modelo de acompanhamento permite uma individualização do atendimento e uma grande flexibilização dos protocolos, além de não exigir o deslocamento da mulher entre diferentes ambientes e reduzir o número de pessoas que entram em contato com ela e com o bebê ao longo de todo o atendimento, reduzindo assim também as chances de falhas de comunicação que possam levar a erros médicos.

O Parto Domiciliar permite uma grande autonomia da mulher, pois é ela quem define quem deseja que esteja com ela, como deseja o ambiente e todas as condutas são decididas em conjunto entre ela e a equipe.

O planejamento de todo Parto Domiciliar inclui o planejamento de uma possível transferência hospitalar, que sempre pode ser necessária. Para minimizar os riscos evita-se intervir no Parto Domiciliar, pois as evidências comprovam que intervenções costumam levar à necessidade de mais intervenções (a cascata de intervenções pode ser iatrogênica). Caso ocorra a necessidade de se entrar com intervenções, procede-se à transferência e o Parto Normal continua no hospital.

As/os profissionais que acompanham partos domiciliares planejados costumam ter treinamento em reanimação materna e neonatal, sendo preparadas/os para intervir em tempo hábil e de forma eficiente em situações de emergência. O material que levam para os acompanhamentos domiciliares inclui todo o material necessário para efetuar a reanimação materna e neonatal em caso de necessidade e manter mãe e bebê estáveis até a chegada do SAMU.

Por enquanto, o Parto Domiciliar só é possível para aquelas mulheres que investem em uma equipe particular. Apenas um hospital no Brasil todo oferece acompanhamento de Parto Domiciliar via instituição: o Hospital Sofia Feldman, em Belo Horizonte.

Espero que tenham gostado do post!

Por Adele Valarini, Doula e Consultora Perinatal

4 comentários sobre “Tipos e Locais de Parto | Por Adele Doula

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