Tocofobia – Você tem Medo do Parto?

Sabe o que é tocofobia?
Medo do parto é um medo real. Cada vez mais, mulheres sentem um verdadeiro pavor em imaginar como será o nascimento dos filhos. Estima-se que 1 a cada 6 mulheres apresente fobia relacionada ao nascimento ou até mesmo à concepção. A fobia entende que há uma relutância ou falta absoluta de desejo tanto para lidar com a maternidade quanto para lidar com o sistema obstétrico. Existem portanto, dois tipos de tocofobia.

TOCOFOBIA PRIMÁRIA
A tocofobia primária muitas vezes começa na infância ou adolescência ou em uma mulher não mãe, que descobre uma aversão à maternidade e manifesta um medo profundo de engravidar para evitar que passe por uma situação que ficou sabendo da família ou de alguma desgraça que foi apresentada em um filme ou algo do tipo. Pode se manifestar em mulheres que querem ser mães, querem gestar e querem criar mas a ideia de parir ou de ser submetida a uma cesárea lhe causa pânico por causa do que ouve falar de partos.
Exemplo 1: A tia da prima da vizinha engravidou eu teve XXXXXX (insira aqui alguma intercorrência) e fez XXXX (tratamento) mas sofreu XXXX (consequência).
Exemplo 2: A prima do meu cunhado foi ganhar neném e XXXXXXXX (desastre) aconteceu e ela nunca mais se recuperou.
Exemplo 3: Assistir a um parto na novela com litotomia, episiotomia e kristeller em pleno 2018.

TOCOFOBIA SECUNDÁRIA
A tocofobia secundária geralmente se manifesta em mulheres adultas, talvez já grávidas ou multíparas que possuem algum trauma muito pessoal como um abortamento espontâneo ou uma experiência traumática de violência obstétrica e a fobia se dá pelo medo dessas experiências se repetirem.

Nem sempre foi comum, parir era um ato como outro qualquer da vida, era encarado com mais naturalidade. Hoje com intervenções muitas vezes desnecessárias ou agressivas e a passividade forçada da parturiente, parir tornou-se um ato assustador para boa parte das mulheres.
Na Europa e na Oceania já temos um forte movimento contrário aos padrões hospitalares arcaicos mas nas Américas (norte, central e sul) ainda prevalece um sistema assustador que causa esse pânico. A mídia tem um papel fundamental para propagar essa cultura de partos sofridos e pertubadores, afinal poucas pessoas que não trabalham na área já estiveram presentes no nascimento de alguém que não fosse o próprio filho, então a referência de boa parte da população leiga é das cenas de parto que passam nas televisões. Muitas vezes, aquela cena é ou um alívio cômico feita de forma exagerada para ser considerada engraçada ou o extremo contrário e é uma cena de drama, suspense onde é acompanhada de muita aflição pelos telespectadores. É raríssimo o parto ser retratado com naturalidade.
Signature:baed3687aecc9fc02b05e033f52ab04b5ac34144c6f0702c4e0cfe36f9d34041O que vemos em filmes, séries e novelas é: grito, choro e descontrole;
O que vemos aqui nos C.Os é: frieza, protocolos sem explicação clara, desinformação e desatualização. Para muitas mulheres que tiveram seus partos nas décadas de 80, 90 e início de anos 2000, parir era muito diferente do que pode ser hoje, no entanto a mídia segue retratando o ato de parir como algo anormal e perpetua um discurso sexista de falta de protagonismo e víncula parto a sofrimento, dor e medo.

Seu nervosismo e racionalidade excessiva trava o funcionamento do corpo no lugar de permitir que o sistema límbico comande o parto e é justo isso que tantos profissionais não humanizados usam para justificar uma indução/condução ou uma interrupção da gestação e te encaminham para a sala de cirurgia.
O seu encontro com o filho que foi gerado em seu ventre não deveria de forma alguma estar relacionado a desconforto.
Por isso é tão importante saber o que é possível, o que é flexível e o que é imprescindível nos protocolos hospitalares na hora de fazer um plano de parto e alinhar as expectativas com a realidade possível.
É aí que a humanização e a doula podem ser apresentados a essa mulher.
O primeiro passo: buscar bons exemplos. Um grupo de apoio ao parto, uma roda de gestantes que fale sobre evidências e conversar com pessoas que já conseguiram um parto normal e gostaram da experiência.
Segundo passo: um profissional qualificado para tratar da fobia e suas questões a nível subconsciente. É ideal que a mulher busque um acompanhamento psicológico ou psicanalítico e talvez psiquiátrico. Afinal, é uma fobia e deve ser levada a sério.
Terceiro passo: Doulas podem ser contratadas para antes do nascimento e durante o nascimento e para depois do nascimento. Cada uma das etapas com o papel de acolher e informar. A mulher escolhe o que lhe parecer melhor. A doula ouvirá os medos e receios e ajudará a mulher a traçar uma ESTRATÉGIA de parto, além de oferecer apoio numa escuta ativa e empática, coisa que muitos parentes e amigos às vezes falham em fazer, por estarem em outro papel. A doulanda irá apresentar suas queixas e irá se informar para escolher e preparar aquela mulher para o que vem.
Quarto passo: A escolha da equipe técnica é tão importante quanto. Confiar em quem está ali com você é essencial para que a fisiologia do parto ocorra sem que a mulher precise se posicionar em estado de alerta e questione tudo que está sendo feito no momento que era para ser de entrega absoluta.
Se tem tantas mulheres achando que o parto foi a pior experiência da vida delas é porque não foram tratadas com o devido respeito. Isso é independente da via de nascimento – Isso diz respeito à ASSISTÊNCIA. Felizmente, existem sim equipes respeitosas, acolhedoras e atualizadas com condutas baseadas em evidências.
violencia-obstetricaUma boa assistência, isto é, uma assistência que permite o protagonismo da mulher, respeitará a intimidade, história e decisão da mulher por todo o período perinatal. Isso inclui oferecer a ela informações para que ela entenda as opções e necessidades dela ao longo de todo processo. Muitas vezes, a mulher pode evitar de compartilhar seus anseios por vergonha ou por se sentir silenciada. É preciso levar à sério as dúvidas e os receios. Assim como é preciso mostrar a ela a outra parte muito menos abordada sobre parir.
As pessoas falam bastante das dores, do medo de dar algo errado ou de “não ter força suficiente”. Não se fala de como parir é delicioso. Parto prazeroso existe porque a natureza fez com que isso fosse possível (vide formato e local do clitóris).
Precisamos falar mais do quanto as mulheres são incríveis. As mamíferas de todas as espécies conseguem passar por isso e as humanas ‘desumanizaram’ um processo natural e sagrado.
Se você quer parir, procure pessoas que te apoiem e uma equipe que acolha você.
Se você passou por um parto traumático, não traumatize os outros pela sua experiência própria. É importante desvincular um trauma pessoal de uma verdade absoluta.
Busque mais leituras sobre tocofobia e pesquise sobre partos orgásmicos.
Veja o abismo entre as experiências de parto.
É possível ter uma experiência maravilhosa na hora que você for dar à luz.

Por Yohanna Cordeiro - Doula e Consultora Perinatal.
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