Entendendo Melhor a Partolândia e o Prazer no Parto | Por Adele Doula

Um dos conceitos que as pessoas têm mais dificuldades em aceitar e que causa mais controvérsias nos cursos de formação de Doulas e nos grupos de gestantes que organizo é o do parto como parte integrante da vida sexual do casalEu sempre digo (e não sou a única!), e repito aqui: “parto é sexo!“, mas às vezes é meio complicado para as pessoas entenderem exatamente qual é essa relação, já que o nosso senso comum costuma representar o parto como um evento médico apenas.

Como Doula, sempre procuro resgatar o aspecto fisiológico, natural e sexual do trabalho de parto e busco sempre traçar paralelos com outras funções fisiológicas, para assim desmistificar o processo. Sim, parto é sexo! E pode ser muito prazeroso! A seguir, veremos mais em detalhes o porquê.

Espero que gostem!


Os hormônios

O principal hormônio atuante no parto é a ocitocina, que é a responsável pelas contrações uterinas. A ocitocina, na verdade, faz parte integrante de nosso dia-a-dia, sendo liberada em diversas circunstâncias, entre elas: nos momentos em que nos alimentamos, nos momentos em que relaxamos e quando nos preparamos para adormecer… Em outras palavras, nos momentos em que utilizamos menos o nosso neocórtex, sede da linguagem e do raciocínio, e mais o nosso sistema límbico, mais primitivo. Ela também é liberada quando nos engajamos em atividades sociais prazerosas, como uma boa conversa ou um abraço, e é protagonista principal de nossa vida amorosa e sexual, sendo também conhecida como o “hormônio do amor“.

A produção de ocitocina desencadeia a produção de endorfinas, que são conhecidas como o “hormônio do prazer“. As endorfinas propiciam uma sensação de euforia mas também têm um efeito anestésico natural. Seu efeito é muito conhecido no esporte: sabe-se que um atleta pode, no auge da atividade, fazer algum movimento mais puxado causando uma lesão e nem sentir na hora, por causa dos elevados níveis de endorfinas. No parto, as endorfinas são produzidas naturalmente pela mulher em quantidades cada vez maiores, que aliviam naturalmente as sensações dolorosas permitindo assim à mulher suportar contrações uterinas cada vez mais fortes.

O hormônio antagônico da ocitocina é a adrenalina, que é liberada em situações de estresse e risco percebido. A adrenalina tem como efeito a tensão dos músculos do corpo, preparando o indivíduo para reagir diante do perigo, seja fugindo ou lutando. Quando a mulher em trabalho de parto produz elevadas quantidades de adrenalina, sua produção natural de ocitocina fica prejudicada e, em consequência, o trabalho de parto não evolui tão facilmente.


O ambiente mais propício
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Sala de parto humanizado com banqueta para parto de cócoras, bola de pilates, banheira, barras na parede e gancho no teto para facilitar as posições verticais e a movimentação durante o TP | Imagem: arquivo pessoal

 

Conforme disse Ricardo Jones no documentário O Renascimento do Parto: “O ambiente mais propício para a mulher dar à luz é aquele no qual ela se sente mais segura”. Para algumas mulheres, esse ambiente é a sua casa, com uma equipe escolhida por ela (Parto Domiciliar Planejado). Outras preferem as Casas de Parto, estruturas adequadas para o atendimento a partos de risco habitual, onde o atendimento é prestado por enfermeiras obstétricas. Já outras – a maioria hoje em dia – se sentem mais à vontade em um ambiente hospitalar, sabendo que há toda uma estrutura preparada para emergências e diversos profissionais ali para lhe dar assistência caso seja necessário.

Alguns hospitais já possuem hoje uma estrutura adequada para o parto normal humanizado, como uma sala na qual a mulher pode ficar durante todo o tempo (sala PPP), sem precisar ser mudada de ambiente, e na qual ela tem a possibilidade de controlar a temperatura, a luminosidade, a quantidade de pessoas que entram e saem, a posição em que deseja ficar, os recursos de alívio para a dor que deseja usar, etc. Infelizmente, esse ainda não é o caso da maioria dos hospitais brasileiros.

Segundo Michel Odent, obstetra francês que estudou os hormônios envolvidos no trabalho de parto, para que este transcorra da melhor maneira possível, a mulher necessita beneficiar de condições similares às que propiciam uma boa entrega sexual: privacidade, conforto, segurança, confiança, não-interrupção.

Privacidade, para poder se entregar ao parto sem inibições, sem se sentir observada, avaliada ou julgada. Às vezes a melhor coisa para uma mulher em trabalho de parto é simplesmente ser deixada em paz, a sós com seu bebê e com seu processo.

Conforto, para poder relaxar seus músculos e entregar sua mente. Um ambiente com temperatura agradável, uma cama confortável, uma banheira de água quente, almofadas, travesseiros, música, velas, tudo o que puder ajudar a mulher a relaxar e se sentir confortável é mais do que bem-vindo no parto.

Segurança, para poder se entregar ao parto confiante de que nada de ruim acontecerá com ela e com seu bebê. Essa segurança passa pela escolha consciente e informada do local de parto, da equipe e do(s) acompanhante(s), aspectos essenciais para que a mulher possa se entregar ao seu parto sem medo e sem preocupações.

Confiança. Na equipe que vai atendê-la e receber seu filho no mundo. No(s) acompanhante(s), que vão estar lá o tempo todo, ajudando e dando suporte. E sobretudo nela mesma, que foi capaz de gestar durante 9 meses uma criança perfeita e é capaz também de dar à luz essa criança naturalmente, como tantas gerações de mulheres antes dela.

Não-interrupção. Assim como no sexo, o trabalho de parto adquire um certo ritmo conforme a mulher vai se entregando a ele. Frustrações, medos e dúvidas atrapalham essa entrega e quebram o ritmo do TP, ocasionando desacelerações e às vezes até paradas de progressão. É comum o transporte para a maternidade ou a mudança de ambientes dentro do hospital “travar” o TP por um tempo, e às vezes pode demorar vários minutos ou até horas para retomar o ritmo, até que a mulher se sinta à vontade, confortável e segura no novo ambiente. 


A anatomia feminina
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O clitóris (em amarelo) é um órgão cuja única função é propiciar sensações na região da vulva e da vagina, sendo muito importante durante o trabalho de parto. | Imagem daqui

 

Para entender o potencial prazeroso do parto, é necessário falarmos sobre a anatomia do clitóris. Ele possui, além de sua parte visível (a glande), uma extensa parte interna que se estende pelos dois lados da abertura vaginal e chega até próximo ao ânus e é composto de tecido erétil, podendo atingir 10cm de comprimento quando plenamente vascularizado (para saber mais sobre o clitóris, clique aqui).

A única função conhecida do clitóris é produzir sensações na região genital, que possui em si pouquíssimas terminações nervosas (afinal, se a vagina tivesse muitas terminações nervosas, o parto seria ainda mais complicado!)

O estímulo ao clitóris se faz de maneira indireta, pois ele se encontra recoberto de camadas de pele.  A massagem, a pressão, o vai-e-vem da penetração permitem que o clitóris seja estimulado e assim atinja sua plena ereção, por sua vez pressionando as paredes vaginais por fora e aumentando a área de contato com o pênis.

Durante o parto, o bebê também faz movimentos de vai e vem no canal vaginal, estimulando a vascularização do clitóris. Além disso, é possível a estimulação do clitóris durante o trabalho de parto, permitindo que a área esteja mais lubrificada e flexível, e sinta mais prazer, ao invés de ser hiperestimulada e sentir dor, como acontece às vezes também no sexo quando as preliminares são insuficientes.

Aliás, preliminares, e às vezes até uma relação sexual, ajudam muito na evolução do trabalho de parto! Isso choca muitas pessoas, mas é a mais pura realidade! Sexo é um excelente meio de aumentar a produção de ocitocina e endorfinas do corpo e serve tanto para tentar induzir o trabalho de parto quanto para acelerar o processo no comecinho do TP (geralmente quando as contrações ficam mais doloridas a mulher não quer mais saber de sexo).

Toda gestante no final da gestação já deve ter percebido que logo após o orgasmo, o útero se contrai várias vezes. Isso acontece porque a ocitocina é liberada em grandes quantidades durante o orgasmo e isso estimula a atividade uterina. Além disso, o esperma possui prostaglandinas que ajudam na dilatação do colo uterino. Ou seja: sexo é tudo de bom antes e durante o trabalho de parto! A única contra-indicação é no caso da bolsa já ter rompido: nesse caso é melhor evitar introduzir qualquer coisa dentro da vagina para não aumentar as chances de infecção.


A imaginação

A imaginação exerce um papel essencial no trabalho de parto e é um instrumento potente, que pode ser a chave para seu sucesso ou para seu fracasso. É importante reservar alguns momentos ainda durante a gestação para ler relatos e assistir a vídeos de partos, e assim conseguir imaginar o trabalho de parto, visualizá-lo como algo tranquilo e natural, sem complicações. E – porque não? – como algo prazeroso:

Não é diferente no ato sexual: a chave do orgasmo feminino está no cérebro, nas fantasias, na imaginação. Com o simples ato de olhar uma imagem sexualmente excitante, ou ler um texto mais ‘picante’, a vagina da mulher se vasculariza em segundos, preparando-se para a resposta sexual antes mesmo dela começar a sentir qualquer tipo de excitação. A simples sugestão da atividade é suficiente para fazer o corpo se preparar para ela.

Isso pode ser extrapolado para o parto: o simples fato de ver vídeos de partos humanizados e ler relatos detalhados de partos faz a maioria das mulheres chorar de emoção, o que indica liberação de ocitocina e endorfinas em altos níveis. Com isso, o corpo pode estar começando um preparo físico e mental para o parto, criando uma base de dados imagéticos e de sensações e sentimentos que pode ajudar muito durante o trabalho de parto.

Imaginar a dilatação acontecendo e o bebê nascendo ainda durante a gestação prepara a mulher para este momento, e fazê-lo durante o trabalho de parto ajuda que ela possa vivenciar o processo com segurança e tranquilidade, evitando cair no temido ciclo de medo-tensão-dor. Quando a mulher sente medo, por não saber o que está acontecendo nem o que vai acontecer, e pensar que aquela dor só vai piorar, ela tende a lutar contra as contrações e vai progressivamente tensionando todos os músculos do corpo. Essa tensão é acompanhada por uma intensa liberação de adrenalina que, como já foi mencionado acima, atrapalha a evolução do trabalho de parto por inibir a produção da ocitocina e das endorfinas. Em consequência, a mulher sente mais dor, o que gera mais medo e mais tensão, por sua vez aumentando ainda mais a dor em um círculo vicioso que muitas vezes leva a mulher a implorar por uma cesariana para acabar logo com isso.


A Partolândia: o incontrolável, a entrega e a recompensa

 

Relato de parto Fernanda Paz

Fernanda Paz na Partolândia – Leia o seu relato descrevendo de forma maravilhosamente detalhada as sensações deste momento aqui | Imagem: Além d’Olhar

 

O trabalho de parto é um momento de intensas sensações e profundos sentimentos. É um momento em que a mulher abre seu corpo e sua alma para receber seu filho, e muitas vezes esse processo não é fácil. Conforme os níveis de ocitocina e endorfinas vão aumentando, a mulher progressivamente passa por mudanças no seu estado de consciência. É normal ela parar de prestar atenção nas coisas que estão acontecendo à sua volta para se concentrar apenas no que está sentindo. O tempo perde o sentido. Não existe mais nada fora o seu corpo e as sensações que nele habitam. Esse momento é chamado de Partolândia.

A Partolândia não é um lugar, é um estado mental alterado. Ela acontece quando os níveis de ocitocina e endorfinas chegam a um certo ponto em que as contrações ficam muito próximas e intensas, geralmente próximo do momento do bebê nascer. Algumas mulheres relatam a sensação de estarem muito cansadas e adormecendo nesse momento, e algumas efetivamente adormecem entre cada contração. Outras mulheres relatam a sensação de desmaio iminente, e outras ainda relatam que tiveram intensas experiências nas quais saíram do corpo durante o trabalho de parto. Muitas mulheres em trabalho de parto, quando estão nos momentos mais intensos da Partolândia, chegam a acreditar que podem morrer ali, naquele momento. Para a maioria das mulheres, esse é o momento mais assustador, pois em geral ninguém se prepara para uma experiência tão intensa na hora do parto.

A entrega que o trabalho de parto exige da mulher é completa. Ela deve se despir completamente de toda a sua bagagem cultural para conseguir parir. Pudores? Devem ficar do lado de fora do quarto. O trabalho de parto exige que se liberte o lado mais animal da mulher. Não há como permanecer ‘elegante’ em uma hora como essas. Aliás, a preocupação da mulher com como as outras pessoas estão percebendo o que ela está fazendo geralmente tende a atrapalhar muito, exatamente como no sexo, quando ela se preocupa mais com o que o parceiro pode estar pensando dela do que em curtir suas próprias sensações. Vai ter suor? Vai! Muito! Vai ter sangue? Vai, uma certa quantidade. Vai ter xixi? Provavelmente, sim. Vai ter Vômito? Cocô? É possível, sim. Cada parto é muito único: cada corpo faz exatamente o que precisa para conseguir parir, e não há como prever nem controlar isso.

O aspecto incontrolável do parto é uma das coisas que mais faz as mulheres sofrerem. Não há como forçar o trabalho de parto a acontecer quando a mulher quer, não há como controlar as contrações do útero, nem para fazê-las mais fortes nem para fazê-las cessar, não há como fazer o parto ser curto ou longo, fácil ou difícil… Nada está nas mãos dela! Apesar dela poder utilizar algumas técnicas e fazer alguns movimentos para tentar facilitar o processo, a influência real que a mulher tem sobre seu parto é mínima: ela pode dificultar o processo, tensionando os músculos do corpo ou ela pode facilitar o processo, relaxando-os. E essa sensação de falta de controle é geralmente assustadora! O medo aparece em vários momentos do trabalho de parto, e a Partolândia é um momento muito propício para isso, por causa da vulnerabilidade da mulher nessa hora, por isso a importância de se poder contar com o apoio incondicional de pessoas queridas durante o parto.

Quando a mulher consegue ultrapassar seus medos mais ancestrais e arraigados, ela pode relaxar e se entregar às sensações únicas da Partolândia e sentir, graças a maravilhosa função do clitóris, seu bebê nascer bem devagar. Nessa hora, na maioria dos casos, as mulheres sentem instintivamente vontade de fazer força como se fosse para evacuar. É melhor deixar a mulher fazer força quando e como sentir vontade ou, melhor ainda, deixar o bebê nascer sem fazer força, para diminuir as chances de lacerações na vagina e no períneo. Algumas mulheres naturalmente colocam a mão na vagina e tocam na cabeça do bebê. Outras seguram os lados da vulva ou pressionam o clitóris enquanto o bebê sai, estimulando-o e reduzindo as chances de laceração. Em alguns relatos, as mulheres contam que sentiram todos os detalhes do bebê nascendo: seu narizinho, suas orelhinhas… e algumas relatam uma sensação de grande prazer quando o bebê realiza seu giro dentro do canal de parto:

Quando o bebê termina de nascer, acontecem duas coisas simultaneamente:

1) a dor cessa, e a sensação de alívio é imediata;

2) a mulher, que estava liberando altíssimos níveis de ocitocina e endorfinas (os mais altos de sua vida), de repente sente uma alegria incrível, geralmente descrita como a maior de suas vidas. É o momento do pico de ocitocina que favorece a formação do vínculo entre mãe e bebê:

O “high” sentido pela mulher logo após o parto natural é uma das experiências mais intensas que ela pode experimentar em toda a sua vida!

Biologicamente, esse pico de ocitocina tem duas funções claras: ajudar na expulsão da placenta e no retorno do útero ao seu tamanho normal e promover o vínculo entre mãe e filho e a amamentação, já que a ocitocina também está relacionada com a produção de leite.

Mas sua função ainda vai mais além: a ocitocina, assim como a adrenalina, é um hormônio extremamente contagiante, portanto todas as pessoas envolvidas no nascimento também apresentam elevados níveis de ocitocina durante e logo após o parto. Isso reforça o vínculo entre essas pessoas o que, se o ambiente do parto for um ambiente familiar, é muito benéfico para todos os envolvidos.

Veja a seguir dois lindos vídeos que mostram a Partolândia e o prazer no parto:

Espero que tenham gostado do post!

Por Adele Valarini, Doula e Educadora Perinatal | Postado originalmente em 05/06/13

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