Motivos que me levaram a ter um parto domiciliar

Sempre quis parto normal. Cresci ouvindo, fascinada até, sobre os partos da minha mãe. Partos aparentemente fáceis apesar de dolorosos. Quando passava as novelas com aquelas cenas clássicas com mulheres aos berros eu sempre ouvia: que exagero! Entretanto não me iludi, afinal sempre achei minha mãe de uma força admirável, mesmo no seu compacto 1,56m.

Então cresci e comecei a planejar minha gravidez. Nesse período minha irmã ficou grávida antes de mim e igualmente focando num parto normal. Chegou a termo, indução, cesárea. Ficou arrasada. O Obstetra dela era o mesmo que me atendia como ginecologista. Acendeu um alerta em mim. Não achamos justificativa real para a cesárea. Comecei a pesquisar sobre esse mundo e foi quando, sem ao menos estar grávida, descobri o nosso sistema cesarista! Fiquei abismada!

Engravidei. E já parti para a busca por um obstetra que me apoiasse de verdade na minha decisão que parecia tão absurda aos que me rodeavam. Primeiro GO: até “faço” parto normal mas minha esposa também é médica e optamos pela cesárea para os 3 filhos. Mas faço sim. Ahã. Tchau. Segunda GO já foi mais simpática e direta: concordo que seja a melhor opção mas o plano paga muito mal, não consigo fazer pela remuneração deles. Gostei da honestidade e fechamos um valor para que me atendesse. Seguimos o pré-natal e apesar de estar encantada com o atendimento dela sempre ficou um medo de que algo surgisse. Levei uma lista que encontrei na internet sobre falsos motivos para a cesárea e pedi para ela me explicar um por um. Não queria surpresa na hora do parto. Numa consulta cheguei a chorar e implorar que não fizesse uma cesárea desnecessária. Na verdade temia até uma necessária, mas isso estava ainda mais fora do meu controle. Ao final da gestação uma ecografia apontando uma bebê “gordinha” (3.5 kg) faz a médica apresentar um de seus limites, além do prazo já dado de 41 semanas. Fiquei tensa. Mas vamos lá, tinha que dar certo. Já tinha penado tanto pra engravidar, não ia acontecer isso comigo! Acabamos agendando a indução para 41+1. Mas minha filha veio em seu tempo, na véspera. Consegui meu parto normal. Alívio! Alegria! Sensação de Vitória! Único parto normal em uma semana naquela maternidade. Fui quase a atração entre os funcionários!

2012 – Nascimento da Cecília – Fotos Arquivo pessoal

Segunda gestação, 3 anos depois. Já tinha mais conhecimento, comecei a perceber que tive sorte. E isso me aterrorizou! Quanto mais lia e pesquisava mais certeza eu tinha que cairia numa cesárea ou violência obstétrica se não tivesse dinheiro para bancar uma boa equipe. E eu não tinha. Comecei a traçar estratégias mas nada me dava a segurança que precisava. Estudei muito! Tinha plano de saúde mas me parecia mais provável parir pelo SUS apesar dos olhares tortos da família e amigos. Mas ainda não me sentia segura como gostaria, como precisava! Cheguei a fantasiar um parto desassistido em casa tamanho era meu medo.

E nessas buscas encontrei o mundo das Doulas e Enfermeiras Obstétricas e Casas de Parto. Começava a aparecer uma luz no fim do túnel. Cogitei a Casa de Parto de São Sebastião e me encantei. Mas como meu primeiro parto foi com 41 semanas não queria ter essa preocupação pois lá não atendem após essa data. Fui atrás de acompanhamento pré-hospitalar. Um meio termo entre ter uma equipe para o parto e ficar sozinha na decisão do momento de ir para o hospital. Até então parto domiciliar não era opção, a falta de informação me fez preconceituosa. Parecia arriscado ou algo para Gisele Bündchen que poderia ter uma uti montada em casa. Sim, pensava assim. Mais pesquisas, acho uma antiga amiga de escola, com quem não falava há anos, num desses lindos grupos do Facebook. Entrei em contato e ela me contou dos seus dois partos domiciliares e mais um já contratado. Não pareceu tão absurdo mais. E bastou apenas uma reunião com a equipe que ela me indicou e que busquei para saber sobre o pré-hospitalar para ver o Parto Domiciliar com outros olhos! Começou a fazer todo sentido! Precisei de coragem para assumir essa decisão e expor para a família. Meu marido confiou totalmente na minha decisão, ele sabia que não faria algo que não fosse realmente seguro. Minha família com certeza não entendeu tão bem mas foram maravilhosos e me respeitaram, me apoiaram e até ajudaram a realizar financeiramente essa escolha. E então pude relaxar! E curtir de verdade a metade final da gestação.

Isso só foi possível pelos meus estudos. Fui a fundo. E tomei a decisão muito consciente. Tive que enfrentar meus próprios preconceitos, os comentários diretos ou indiretos de quem me cercava, os olhares de desaprovação e julgamento. Poderia ter ficado mais resguardada e não espalhar ao mundo a minha escolha mas fiz questão de tentar passar o que aprendi. Já surgia a Doula em mim!

2016 – Nascimento da Olívia – Fotos Hailla Coelho e edição Veloso Valentim Fotografia

Hoje tenho uma visão bem mais amena sobre médicos e hospitais. Já houve melhoras significativas e estando em contato maior com esse mundo já consigo avaliar mais as opções. Parto Domiciliar continua sendo a melhor opção para mim mas hoje entendo como uma escolha extremamente particular. Precisamos Parir onde nos sentimos mais seguras! E para muitas mulheres será o ambiente hospitalar. O que desejo para todas é que haja escolhas reais, informadas, embasadas na ciência e não no medo.

Texto de Ana Karla Veloso para a Rede Ocitocina – Se gostou compartilhe, não copie.

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