Precisamos falar do Primeiro mês

O primeiro mês de pós parto e recém-nascimento do bebê é tenso. Em geral, as pessoas se focam na gestação, no parto e no puerpério como um todo, mas o primeiro mês é diferente do resto do pós parto e ele começa ASSIM que o parto termina, então este assunto diz respeito a quem está gestando, principalmente.
Eu sei, você deve pensar “Eu quero ler agora sobre parto, não sobre o que vem depois” mas acredite em mim, PRECISAMOS FALAR DO PRIMEIRO MÊS.


Quero falar desse primeiro mês sem me repetir muito, porque já falei de organizar o pós parto, da solidão do puerpério e de amamentação, mas como essa fase é um emaranhado de tudo, muitas coisas vão ressurgir no texto.


O primeiro mês chega como um maremoto. Sem te perguntar se você está pronta e sem te dar tempo para se recuperar do que estava acontecendo momentos antes, porque ele te arrasta para longe em instantes.
Quanto mais você adentra o puerpério, mais percebe que se trata de instinto de sobrevivência.

O termo mais comum que você deve ter percebido nos textos, artigos e grupos é Binômio Mãe-Bebê. Isso é, mãe e bebê são um só. Devem manter-se unidos o máximo de tempo possível, pois o bebê sequer sabe que é uma pessoa e a mãe outra. Isso, em uma relação saudável, vai ser descoberto só depois de muito tempo (ocorre entre 6 e 8 meses) e dependendo de como for essa percepção, pode causar ansiedade/angústia da separação ou pode ser uma novidade vista com muita tranquilidade e naturalidade.

Mas vamos voltar ao primeiro mês…

Seja lá como for o desfecho do seu parto, talvez você se sinta mãe de imediato, ao ver o bebê; talvez você demore mais algumas horas ou dias (e talvez nunca, como sabemos que acontece mais ninguém toca no assunto) e essa sua auto percepção de mãe é uma transição que muda como você se enxerga em vários aspectos.

Vamos imaginar um cenário ideal onde teve uma hora de ouro lindíssima e a amamentação tá um sucesso maravilhoso. Todos prontos para uma linda lua de leite.
Mãe-bebê estão se conhecendo, acompanhante está avisando a família, pegando a mala da maternidade.
Algumas pessoas falarão da amamentação, outras virão fazer exames no bebê e verão como está o sangramento da mãe.
Mil profissionais prontos para ajudar a qualquer sinal de dificuldade.

Passa a primeira noite.
Logo deve-se perceber que bebês não seguem relógios, até porque poucas horas antes eram fetos e esse mundo exterior não têm regras ou costumes que eles entendam, então para poupar sua preciosa energia, melhor seguir o ritmo dele de sono.
Você até consegue se visualizar pegando o bebê e botando de uma determinada forma, mas quando pega de fato, tem medo de machucar. “Ele é tão pequeno, tão mole, tão frágil, como as enfermeiras pegam tão rápido? Parece tão fácil quando elas fazem!”
Muitos medinhos vão aparecendo. Mas felizmente, sempre tem alguém ali para ajudar.

O bebê ainda é puro instinto. Ele pode mamar lindamente uma hora e na outra nem tanto. Ele ainda não está associando suas ações à memória do que deu certo.
A mãe está feliz, cansada, preocupada – muito preocupada. Ela quer provar para si mesma que será uma ótima mãe, quer conseguir tudo sozinha mas não ao ponto de negar ajuda profissional, já que estão internados, aceita ajuda, pergunta, tenta, e tenta ao máximo transparecer que está tudo 100% sob controle.
Mas, lá no fundo, nem sempre está.

IMG_3957Ao receberem alta, chegam em casa.
Finalmente o bebê vai poder usar aquele monte de coisa que a família comprou ou fez se preparando para sua chegada! Finalmente poderão receber visitas aos montes ou então se isolar completamente do mundo e ficarem só os três. Não tem um botão que acione um profissional dentro de instantes.

Chegar em casa tem prós e contras.
Um recém-nascido nem sempre exige muito dos pais. Às vezes dorme 14 horas por dia e quando está acordado, está mamando. Mas os pais estão ali, fazendo mil coisas para se prepararem novamente para o bebê. Tentam antecipar quais itens serão usados em seguida. Querem amenizar o tempo de deslocamento para utensílios. Ficam constantemente se ocupando e às vezes demora a cair a ficha de que já não existe mais preparo. O bebê está lá. Agora é aproveitar esse momento.

No primeiro dia da alta, vem uma sensação de que esta será sua nova realidade e embora seja familiar, pois aquele ambiente é seu lar bem antes do bebê chegar, também vem a sensação de que absolutamente tudo mudou.
E muitas coisas podem começar a acontecer. Aquela linda pega pode simplesmente não encaixar mais. Nenhuma posição mais fica confortável para amamentar. Os pais começam a se delegar tarefas ou a delegarem mentalmente e esperar que o outro também faça ou faça mais.
Roupinhas para lavar, comida pra fazer, objetos para higienizar.
No hospital, até a alta, estava tudo indo bem.
Mas agora bate aquela insegurança.
O que aconteceu?
Será que é normal isso que está acontecendo?
As questões sobre se sentir a melhor mãe do mundo assim que o bebê nasce voltam de forma discreta, muitas vezes em forma de um desespero silencioso porque admitir que você não sabe exatamente o que fazer seria como fracassar diante dos olhos alheios e pior, diante da sua própria consciência sobre o seu preparo para ter um filho.
Muitas dessas sensações são reprimidas porque julgam ser hormonal.

Amethyst+900pxNo exterior estão comentando bastante sobre “the second night syndrome” que literalmente se traduz em: Síndrome da segunda noite. É quando o bebê entende que nasceu e está em um mundo estranho. Bebês que estavam calminhos no primeiro dia de repente estranham tudo. Mamando o bebê fica bem até dormir mas só de encostar em uma superfície lisa e reta já começa a chorar. O moisés, o berço, o bebê conforto, tudo incomoda. E assim começa a saga para extero-gestar o bebê e basicamente recriar o ambiente uterino no mundo exterior. Muito calor humano, pouco estímulo visual, cueiro/ saco de dormir /swaddle, sling, som de “shhhh” etc. Trazer de volta a sensação de proteção que ele sentia no ventre até ficar mais tranquilo.

E a não-rotina vai seguindo.
Falo sempre na não-rotina, porque é justamente uma readaptação para seguir o fluxo que o bebê está pedindo, e não tem exatamente um cronograma certo.
Os adultos comem quando dá.
Tomam banho quando dá.
Escovam os dentes quando dá.
Limpam as coisas quando dá.
Binômio mãe-bebê ainda juntos, vai criando o próprio conceito de tempo.

A liberdade é limitada, mas isso não necessariamente algo traumático para a mãe e/ou demais cuidadores.
É difícil se preparar para o imprevisível, mas ter um bebê em casa é adaptar a cabeça, antes de tudo.

A mãe tem direito de achar essas demandas cansativas. Ela tem direito de se sentir esgotada e de se sentir perdida diante da imensidão que está sendo exigida dela. Isso não significa que ela está sendo ingrata e nem que ela não estava pronta para ser mãe. Por que? Porque nem mães que planejaram passo-a-passo para engravidarem e parirem e já se imaginavam brincando em parquinhos estavam verdadeiramente preparadas. Ninguém sabe como realmente será o cotidiano com seu bebê e as emoções, lembranças e projeções que isso trará. As reflexões sobre sua vida, sobre o núcleo familiar, sobre o futuro, sobre a sociedade como um todo…
Todo dia vem uma epifania nova quando se cuida de um bebê. Quem cuida está aprendendo e quem está sendo cuidado também. É um trabalho em equipe para compartilhar esse aprendizado.

tma-1+800pxQuando a apojadura (descida do leite, após o colostro dos primeiros dias) começa, geralmente instala um caos onde estava um mar de rosas.
Talvez não exatamente um mar, mas um laguinho de rosas, digamos.
Os seios produzem MUITO leite e nem sempre o bebê acompanha fora de pico de crescimento ou salto de desenvolvimento (o primeiro pico é com 7 dias mas a apojadura costuma vir antes) e a mulher se vê numa situação nova.
No hospital não ensinaram com muitos detalhes a ordenha, já que ela estava com colostro.
[Obs: Nessas horas é bom ter o contato de uma consultora em aleitamento, uma doula pós parto ou um banco de leite para marcar horário antes que piore]
Vem uma chuva de palpiteiros falando para ordenhar no banho quente, fazer compressa, usar bomba, colocar casca de banana pra evitar mastite etc. Métodos que até aliviam naquele momento, mas aumentam a produção e podem ser diretamente responsáveis por problemas na mama.

Informação atualizada, assim como para a gestação e parto, é ESSENCIAL no pós.

A mãe começa ficar confusa, cansada, dolorida e chateada por não conseguir fazer algo teoricamente simples quanto amamentar.
O bebê também está aprendendo a lidar com aquele monte de leite saindo e com um seio maior.

Pode chegar a um momento crítico em que ela engole o orgulho e pede ajuda. Esse pedido muitas vezes é em forma de um desabafo. É preciso de muita coragem para entender que “se virar” também inclui pedir ajuda quando necessário.
O bebê chora. A mãe chora.

A mãe está em resguardo, possivelmente com pontos onde foi a via de nascimento, está cansada desde antes do parto e ainda foca sua preocupação no bebê.
Chega uma hora que ela transborda. Transborda e nem sabe ao certo o motivo. Transborda e se culpa, porque todo mundo fala que ela não deveria chorar porque “””faz mal para o bebê”””.

Reprimir essa sensação, de estar à flor da pele, acaba trazendo complicações com o bebê, como afetar a amamentação. Diante de um problema atrás do outro, a mãe fica com medo de realmente fazer mal para aquele bebê. Ela tenta de tudo. O casal tenta achar alguma solução sem entender que é de cunho emocional.
Percebem nesse momento que boa parte das coisas que compraram não ajuda com questões práticas, porque não adianta fazer enxoval e não se informar sobre o puerpério e todas as emoções que aparecem nessa nova jornada.

A frustração pode ser angustiante. Ninguém aguenta mais o choro do bebê. Pensam em ceder e oferecer coisas que sabem que fazem mal. Começam a discutir. O bebê fica mais estressado… e aí… de repente, vem um momento de calmaria que quase dá para recuperar a energia e sanidade.
Dias tranquilos se alternam com dias caóticos e o binômio mãe-bebê está conseguindo entrar em sintonia.
Uma simbiose que nenhuma palavra consegue descrever.
Mas lá vem outra turbulência.

O primeiro mês tem 3 picos de crescimento e ao final, 1 salto de desenvolvimento. Além das vacinas e exames que também alteram o comportamento do bebê.

IMG_4825A mãe é levada a milhões de extremos nesse período.
Ela quer cuidar mas precisa ser cuidada.
Ela quer tranquilizar mas precisa ser tranquilizada.
Ela quer um tempo para si mas não quer perder nenhum segundo que poderia estar com o bebê.
Ela se vê de relance no espelho e nem se reconhece mais.

É um processo solitário de não saber se está preparada e ao mesmo tempo se convencer de que sim. Como se o desejo de ser mãe fosse automaticamente o bastante para suprir todas as demandas de um bebê.

“Ah Yohanna, por que solitário? E se ela tiver com quem compartilhar a parentalidade?”
É ótimo que ela tenha alguém para ajudar com os cuidados do bebê e com a criação de forma geral, mas só ela estará no binômio com o bebê. Só ela literalmente irá produzir e oferecer o único alimento daquele bebê. Só ela estará com o corpo todo mudando por dentro e por fora por causa daquele bebê.
Não exclui outra pessoa dos cuidados, mas só a mãe passa por isso tudo.

E tendo dito isso, acho importante falar sobre o papel dessa outra pessoa.
Essa figura paterna (ainda que não seja o pai), que estará lá também com diversas questões surgindo e sendo silenciadas.

Rebobinando um pouco,
esses pais pensam “poxa mas eu fui às consultas de pré natal, fiz fotos para o ensaio com a barriga, fui às rodas com outros futuros pais e mães, estive presente no parto e ainda me sinto sobrando. O que eu posso fazer? O que cabe a mim?”

Queixa extremamente frequente dos pais é não saber exatamente onde eles se encaixam ali, já que não é trinômio.

Percebem, com certo pesar, que cortar o cordão não passou de uma ação física, mas que a conexão real de mãe-bebê não pode ser clampeada.

Então, o que fazem esses pais?

Para falar de pais quero pincelar rapidinho algo que sempre comento nas rodas e consultas: Paternidade ativa é algo recente. O interesse dos pais pelos filhos é algo que ainda está sendo construído, porque até pouquíssimo tempo atrás, os homens não participavam de nada do ciclo gravídico-puerperal e muito menos da criação. Perguntem aí para os pais de vocês se eles assistiram ao seu nascimento? Pergunte se eles queriam? A lei do acompanhante é de 2005 mas só foi “pegar” muitos anos depois. Até hoje pais são barrados.
E não é só ver o filho nascer, é brincar, fazer dever de casa junto, levar ao parquinho, teatro, casa do amigo, saber quando está precisando de roupa, etc. Pais eram responsáveis pelas contas da casa, cuidar sempre foi um ato direcionado às mulheres. Então quando tantas mães apontam as desigualdades nas tarefas do lar e da família, é porque queremos equidade para que a parentalidade não seja unilateral e os filhos cresçam com uma família mais unida.

charlottes+boys-1000pxOk… Na prática: Desde o primeiro dia, o bebê deve ouvir bastante a voz do pai – que ele também reconhece de sua vida intrauterina. Deve ir se acostumando com o colo, o cheiro e o olhar dessa figura.

Não é porque a relação simbiótica entre mãe-bebê é prevista que o companheiro não pode ajudar ou pegar no bebê.
As trocas de fralda e o banho podem ser tarefas específicas dele (tanto para ajudar a mulher quanto para a criação de vínculo com o bebê)
Assim que o nasce, a mãe precisa de mais cuidado de fato que o recém-nascido. Mas o pai, as avós – a família em geral, pode e deve curtir o bebê, se respeitarem o desejo da mãe.

Outra coisa, a mãe tem cheiro de leite então só de estar perto da mamãe enquanto dorme o bebê quer mamar, para além da saciedade. Os não-lactantes são ótimos para ninar os bebês. O colo parece ter sonífero.

Sugiro sempre que as leituras sobre amamentação, picos, saltos, vacinas, crises e demais assuntos de puerpério seja sempre lido por outra pessoa, que não a mãe – muitas vezes ela está sem cabeça para processar textos e é com o companheiro ou com a vó que ela vai conversar, desabafar e talvez pedir socorro. Lendo, saberão ajudar de forma mais completa.

Depois de alguns meses, a relação a três, ou mais (se tiverem outros filhos ou se conviverem com a vó, etc) fica melhor distribuída.

O primeiro mês é como se fosse o episódio piloto de uma série.
É tudo meio exagerado, muito intenso e o enredo corrido.
Mas se você aguentar firme, os episódios seguintes podem ser ótimos!

É bom se forçar a lembrar de suas conquistas. A cada semana, sobreviverá a vários desafios. Em vários momentos vai achar que não irá conseguir, mas conseguirá.
A cada nova fase, esquece de tudo que já passou e sente como se estivesse inapta. Mas aqui está um segredinho: Toda mãe já sentiu que era difícil demais e que não ia dar conta. Não nos contam isso porque teoricamente supermães sabem automaticamente tudo assim que o bebê nasce. Uma mãe insegura é condenada.
E uma mãe insegura não quer ouvir ninguém confirmando “nossa, você está fazendo isso errado” ou então “deixa que eu faço” ela quer ouvir que o que ela está sentindo é normal e o esforço dela está sendo notado. O filho dela tem a melhor mãe que poderia ter.



Todas as imagens dessa postagem são obras da Chloe Trayhurn. Sou completamente apaixonada pela forma intensa que ela retrata o puerpério.

Por Yohanna Cordeiro - Doula e Consultora Perinatal.
Ao compartilhar, utilize as opções do site. A cópia e reprodução integral ou de qualquer trecho desse texto não está autorizada sem que haja link direto para o original e créditos à autora.

4 comentários sobre “Precisamos falar do Primeiro mês

  1. Bruna Lupatini disse:

    Excelente texto. Quando vc esta grávida ninguém te conta do depois, do primeiro mês… com certeza foi a o papel mais difícil e mais inovador da minha vida! Neste mês eu não me reconhecia mais, não era mais eu… neste mês eu me reinventei!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Levi Oliveira disse:

    Excelente texto.
    Eu, como um pai fresco de um meninão de 11 dias, posso afirmar que fez muito bem esse texto. É exatamente isso o que acontece, estou lutando pra tentar fazer o melhor pra minha esposa e ao nosso filho. Serei mais firme nas trocas de fraldas e banho rs

    Curtido por 1 pessoa

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