VBAC além das evidências

Há algum tempo a nossa sócia Yohanna me pediu um texto sobre VBAC. Quem me conhece sabe como encho a boca para falar dessas siglas que na verdade são uma transformação, uma redenção e um renascimento. Mas estranhamente travei, demorei muitos meses para “Parir” essa produção temática, porque é uma experiência tão intensa e que envolve tantas questões que é muito difícil encontrar palavras e as estabelecer numa lógica que materializem isso.

Há dois anos e quatro meses eu vivia a experiência mais intensa e transformadora de toda a minha vida, eu sentia o cheiro de vida misturado ao gosto da vitória, nunca me amei tanto quanto naquele dia, nunca me senti tão poderosa quanto naquele momento , em que cheia de ocitocina, inebriada de amor , olhava nos olhos da Catarina , recém parida no meu colo, naquele momento em que dava as boas-vindas à minha caçulinha , uma voz cheia de orgulho sussurrava na minha cabeça “Você é Foda!, Você conseguiu! Naquele início da madrugada do dia 27/01/2016 eu pari a Catarina e uma nova Priscila, nunca mais fui a mesma depois daquela experiência.

O VBAC (Vaginal Birth after a C-Section) ou PNAC (Parto natural após uma cesárea) esconde atrás dessas siglas técnicas e nem sempre entendidas, histórias de superação, busca incansável, resiliência e ressignificação.

No grupo das mulheres que passaram por uma cesárea temos três grandes perfis:

– Mulheres que optam por uma cesárea por desinformação;

– Mulheres que são deliberadamente enganadas pelo sistema, muitas vezes por não terem informações, mas na maioria das vezes pelo o que o sistema te impõe (meu caso);

– Mulheres que tiveram intercorrências que justificaram uma cesárea bem indicada;

Para todas essas mulheres a cesárea precisará ser digerida posteriormente. Muitas, assim como eu, relatam que é uma ferida que nunca fecha completamente, ela ameniza, mas de tempos em tempos aquela história se abre novamente e junto com as lembranças , surgem mil questionamentos e “e se”. A cesárea, ainda que necessária, deixa marcas que vão além da cicatriz física. As mulheres que tiveram uma necessária, ainda tem como se agarrar no fato de que vidas foram salvas, não que isso seja suficiente ou sequer argumento para sua dor do parto não vivido, porque todas devem ter suas dores devidamente legitimadas, mas percebo nas mulheres que atendo que esse fato ajuda no processo de ressignificação. Já para as mulheres que como eu foram cruelmente enganadas com as palavras mais desesperadoras que podem ser proferidas “Seu bebê está risco” , não restam âncoras, precisamos buscar do zero um caminho para a cura da ferida, precisamos lidar, além da dor do parto não vivido, com a raiva de termos sido trapaceadas e vencidas pelo sistema.

Cada uma buscará seu caminho, o meu foi estudar, estudar e estudar, buscar publicações de profissionais referência, primeiro eu precisava provar para as pessoas ao meu redor que eu não era louca e nem ingrata que eu havia sim sido enganada pelo Médico de confiança. O que eu mais ouvia era “deixa de besteira e dê graças a Deus que sua filha nasceu saudável”. Sim, as pessoas são muito cruéis em suas tentativas de silenciarem o sofrimento alheio, porque o sofrimento as incomoda, causa desconforto. Quem viveu uma cesárea necessária ou desnecessária sente na pele o que é a falta de empatia humana. Depois, eu precisava de ferramentas para ajudar outras mulheres que passassem em meu caminho a conseguirem seus partos . Foram anos estudando Fisiologia do Parto, Intervenções, Pesquisas, na época nem tinha a pretensão de me tornar Doula, mas estudar Parto e Nascimento virou vício e paixão. E, assim, os anos foram passando sem que eu conseguisse assistir o vídeo do nascimento da minha primeira filha Maria Luiza, sem que eu conseguisse abafar plenamente a dor do parto não vivido. Tenho ascendente em câncer e a Lua em capricórnio, então toda a compaixão que tenho pelo mundo não se estende a mim mesma na maioria das vezes. Quanto mais eu estudava, mais eu me martirizava e me culpava, até que entrei no mundo das terapias integrativas, da psicologia Junguiana e aos poucos fui entendendo que aquela culpa não me levaria a lugar nenhum e que tanto estudo sem que eu perdoasse a mim mesma só ia me frustrar ainda mais. Eu poderia ter estudado antes? Sim, mas eu nem sequer sabia o sistema era tão vil e cruel. Fui ingênua? Talvez, mas, ainda sim, esses “e se” não me levariam a lugar nenhum. Então, depois de um longo mergulho nas sombras me perdoei e entendi profundamente que a vítima nunca é culpada. E desde então dedico meu propósito a evitar que mulheres tenham seus partos roubados e a ajudar aquelas que vivenciaram uma cesárea necessária ou desnecessária a ressignificarem suas histórias e buscarem seu VBAC.

A ressignificação só é possível quando há espaço para a fala e elaboração, então se abram, busquem grupos de apoio presenciais ou virtuais, deixem que a ferida se abra para que seja possível curá-la. E se vivenciarem uma nova gestação, não tenham medo, persigam seu VBAC.

O VBAC nos transforma por completo, física, psíquica e emocionalmente, é uma ressignificação anímica, uma viagem sem volta regada de amor e empoderamento.

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