Descobri o Machismo ao me Tornar Mãe

Sempre me considerei super bem resolvida como feminista, antes mesmo do termo estar em voga. Cresci com o conceito de que somos iguais e que não devemos esperar por um príncipe encantado que irá nos sustentar. Deveria correr atrás do que eu queria e do meu sustento e não depender de marido para isso e dessa forma poder exigir divisões de tarefas nos afazeres domésticos. Simples assim.

Cada namorado que tive deixava claro essa minha concepção. Não era afeita dos serviços de casa. Não precisava fazer nada na casa dos meus pais além de uma eventual ajuda com a louça de domingo. Mas sempre soube que, principalmente no começo da vida adulta, não teria condições de sustentar os luxos que tinha em casa. Então era uma conversa que tinha sempre. Casamento deveria ser parceria, colaboração mútua.

Só casei depois que terminei a faculdade e consegui um emprego. Execução conforme meus planos. E então decidimos ser pais. E tudo parecia lindamente acordado. Direitos e deveres iguais.

Ele sempre foi um pai presente. Participou de tudo desde o início. Ia a todas as consultas e exames. Esteve no parto e nas madrugadas de amamentação. Dava banho e trocava as fraldas. Voltei a trabalhar e ele ficava em casa com ela pois estava de licença médica.

Não estou sendo irônica, ele realmente sempre foi pai de verdade e com a convivência com outras mães fui percebendo que ele era a exceção. E o tempo todo escutava de amigos e família que eu tinha muita sorte, que ele era um paizão. Eu mesma repetia isso incansavelmente. Primeiro sinal! Ele estava fazendo o papel dele. Assim como eu. Mas como de mim era o mínimo esperado eu era só mãe. Mãezinha. Ele, por outro lado, era o super pai maravilhoso mega hiper ultra blaster: Paizão.

Tudo bem, o ideal seria isso ser o normal mas não é, então vamos levantar as mãos pro céu e agradecer. Como tenho sorte!!!

E o tempo foi passando e as coisas foram ficando cada vez mais claras e percebi que eu não tinha aquele controle da divisão justa e igualitária. Um dos cliques veio uma vez ao sair de casa e percebermos que não tinha fralda na bolsa da nossa filha. Esquecemos de colocar. Mas eu escutei que eu esqueci. Questionei o porque de ser responsabilidade minha exclusivamente. A resposta: porque você é a mãe.

Parece tão pouco, mas foi o que me abriu os olhos para a realidade muito diferente da visão quase utópica que eu tinha. Até mesmo eu me vi repetindo pensamentos e comportamentos machistas. Isso está enraizado na nossa sociedade. Somos produtos de séculos disso.

Há um tempo vi umas tirinhas explicando sobre a carga mental. Isso deu nome ao que eu sentia. E a maternidade só potencializou essa questão. Pois por mais que tenhamos a execução das tarefas divididas igualmente, às vezes até mesmo tendo o pai fazendo mais em casa porque a mãe trabalha mais fora de casa, a parte gerencial ainda fica quase toda conosco. E isso é sutil, embora seu peso não seja. Não é um trabalho palpável ou passível de contabilizar como quantos banhos dados ou quantas fraldas trocadas.

Ao irmos ao pediatra ou na reunião da escola percebemos que a maioria dos responsáveis pelas crianças são as mães. Quando há pais normalmente são acompanhados das mães. Dificilmente há pais sozinhos. Quantos pais ligam para seus amigos para saber indicação de escola, médico ou lazer para crianças? Quantos grupos de Facebook ou Whatsapp de pais? Há os de mães e há os de pais e mães (com presença quase só de mães). Vejam quem está questionando sobre introdução alimentar, melhor creche, transporte escolar, roupas usadas, uniformes, material escolar, onde fazer a festa de aniversário, receitas para crianças alérgicas, melhores livros e programas, promoção de fraldas, lanche saudável, criação… Tudo isso demanda tempo, energia, dedicação. E as mães assumem essa carga simplesmente porque nos foi dito de alguma forma que temos um dom pra isso. E todo esse trabalho acaba ainda menos valorizado pois julgam ser algo natural para nós, como se fizéssemos por gosto até! No meu caso, marido acima da curva, bem acima até. Mas ainda longe de assumir os 50% de toda a carga que temos.

E hoje me dói escutar que ele é um paizão.

Texto de Ana Karla Veloso para a Rede Ocitocina – Se gostou compartilhe, não copie.

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