Culpa Materna – Uma carta aberta

Querida mãe do outro lado da tela,
se o título te interessou, provavelmente não estarei escrevendo aqui nenhuma novidade, mas talvez seja reconfortante saber que de fato há quem também reflita sobre o peso exponencial que é a culpa materna.
É difícil se manter consciente e coerente no mundo imenso da maternidade sem sentir culpa. E sabemos que não devemos sentir culpa, mas aí sentimos culpa por sentirmos culpa. Ficamos paranoicas. Quanto mais tentamos nos aproximar da mãe perfeita, mais nos culpamos por não conseguir alcançar algo que evidentemente era inalcançável.
As outras pessoas enchem a mulher de pitacos e críticas mas nenhuma consegue ser mais dolorosa do que a própria avaliação da mulher sobre si mesma.

Curioso é perceber que talvez nossas mães tenham tido culpa materna mas nossas vós ou bisavós, tias-avós não tinham isso e é comumente um grande choque de geração em relação às preocupações.

“Eu não pensava nisso, não. Às vezes tinha pouca comida e eu dava arroz e farinha de manhã de tarde e de noite quando acabava a janta mandava todo mundo dormir e pronto! Fazia o que podia e AI de quem reclamasse”

“Eu parei de amamentar com dois meses porque voltei a trabalhar e passava o dia inteiro trabalhando enquanto as crianças ficavam na casa da vizinha. Não me sentia em falta com eles, eu precisava trabalhar, ué”

“Comprei um brinquedo daqueles de 1,99 e já tava bom. Nunca parei pra brincar com ele porque estava sempre ocupada e sem paciência pra coisa de criança. Nem sei se tinha esse material tóxico. Comprei e pronto”

Frases que já ouvi de mães reais, agora avós. Ao mesmo tempo em que percebo várias consequências negativas nos filhos, percebo também uma baita admiração por suas mães e fica claro o quanto o conceito de boa mãe mudou nas últimas décadas.
Também, né? Como uma mãe seria aquela figura amorosa que brinca e rola no chão e inventa atividades artísticas todo dia quando tem 10 filhos de idades diferentes pra criar? Os mais velhos eram cuidados pela mãe e aprendiam a cuidar dos mais novos, então a figura materna em si não era tão maternal como a compreendemos hoje em dia.
Essa visão de mãe participativa e consciente não é tão recente quanto o conceito de paternidade ativa mas ainda assim é relativamente nova.
Com menos filhos, ficou mais fácil de se relacionar de fato com cada um deles. E aí veio a vontade de entender esses serzinhos que geramos dentro do nosso corpo ou então que adotamos e passamos a dedicar nossas vidas inteiras para eles. Mas depois surgiu a vontade/necessidade/direito de autonomia financeira e empregos entraram em cena mesmo com filhos.
E agora… aqui estamos. Num dilema eterno.
Minha sócia Priscila fala sempre sobre como a culpa é uma maneira da gente se manter imobilizada. E de fato é. A reflexão que vem com essa sensação de culpa que deveria ser mais explorada.

Quanto mais informação, mais dúvidas. Isso vale para qualquer assunto, mas quando se trata de maternar, nos sobrecarrega.
Existem várias pessoas para nos lembrar sobre como até Freud colocou a culpa de todos os grandes traumas nas mães. (E não só ele, grandes autores e autorAs contemporâneas também) – Isso parece justo?
Numa sociedade onde cada vez mais estimulamos a paternidade ativa, devemos falar sobre divisão da criação como um todo.
Por isso é essencial buscar a conscientização mas sem se martirizar por buscar sua sanidade e seu conforto também.

Veja que linda lição para seus filhos: Mostrar que você também é merecedora de descanso e/ou que precisou improvisar, talvez até contar com a praticidade algumas vezes. Mostrar que você também precisa lidar com estresse e dúvidas.

Tentar dar tudo aquilo que não tivemos para nossos filhos é uma missão automática, todos futuros pais já começam a pensar em tudo que tiveram e querem uma versão igual ou melhor do que os pais concederam. Mas qual a verdadeira lição que damos aos nossos filhos dando absolutamente tudo do bom e do melhor? Eu admiro demais as mães que improvisavam uma refeição ou alguma atividade. É assim que a gente prepara filhos para o mundo.
Nossa luta ensina bastante também. Nossa luta não só para conseguir comprar coisas mas para lidar com a rotina e com tarefas cotidianas. Nossa luta por simplesmente sermos humanas.
Se nossos filhos enxergam nosso esforço para que levemos eles ao parque de diversões, saberão o VALOR daquela experiência. Talvez não seja todo final de semana, mas quando dá, é algo que apreciam mais.
Parte disso de querer “o melhor” para nossos filhos é querer que eles saibam se virar num mundo onde nem sempre terão as condições ideais.
Nenhuma mãe é perfeita e nenhuma criança precisa de uma mãe perfeita.

“A adversidade desperta em nós capacidades que, em circunstâncias favoráveis, teriam ficado adormecidas.” Horácio

Assim nascem mães extraordinárias. Mesmo que não sejam extraordinárias todos os dias. Temos nossos dias bons e nossos dias xexelentos. Nossos momentos de glória e nossos momentos de remorso.

Vou aqui, narrar um resumo dos conflitos internos que quase toda mãe que buscou informações demais passa pela maternidade toda.
A vontade de alcançar a perfeição começa na gestação.
Amigos, familiares, parceiros e profissionais falam de como deve ser sua dieta, seus afazeres e sua rotina entre outras coisas e mesmo filtrando, você vai se abalar.

Tomei as vitaminas complementares hoje? Sulfato ferroso ou ácido fólico?

Preciso tomar cuidado com o sobrepeso. Cuidado com o crescimento do bebê. Não seria bom fazer outra ecografia? Vou atrasar aquele exame? Compro enxoval de TAL jeito ou de outro jeito? Será que economizo para investir na equipe? Será que devo ler mais sobre o parto e puerpério? Será que tirei fotos o suficiente? Preciso evitar isso, e aquilo. Escolher o parto tal! O parto X é perigoso! O parto Y é arriscado. Será que estou pronta? Será que dá tempo de me preparar? Será que eu realmente queria estar grávida? Será que estou feliz?

E na hora do nascimento?

Tenho que me manter ativa. Não posso gritar. Será que estarei racional o tempo inteiro? Vou atrapalhar o meu parto. Não quero intervenção. Será que estou lutando por mim ou pelo bebê? Será que ultrapassei o limite? Tenho que tomar cuidado pra não traumatizar o bebê na primeira hora de vida! Tenho que tomar cuidado para não me distanciar dele! Tenho que tomar cuidado para não prejudicar o vínculo assim que o bebê nascer porque senão, passarei a vida toda tentando compensar.

E depois?

Todo choro deve ser acolhido. Todo o tempo deve estar no colo.
E se ele dormir longe e sofrer SMSL? Nunca vou me perdoar! E se dormir perto demais? Vou esmagar. Será que amo que nem outras mães? Será que eu serei uma boa mãe? Será que tenho leite suficiente?
A exterogestação são só três meses mas e se eu cansar? E se ficar deprimida? Será que vai passar para o bebê? O bebê é um reflexo de mim mas ele não para de chorar, o que eu tenho de errado? E se não mamar bem o resto do dia? Onde estou errado? E se a apojadura demorar? E se a minha dieta não estiver balançeada o suficiente? Que tipo de nutriente eu quero passar a ele? E se alguém da família oferecer cházinho enquanto eu não estiver vendo? E se enquanto eu tomar banho alguém der chupeta? Será que estou me distraindo demais? Será que fui fraca por não querer segurar meu filho? Será que estou olhando para o rostinho dele o suficiente?
E se a papinha for batida? E se esmagar e ele engasgar? E se fizer BLW e ele não comer o suficiente? E se oferecer suco antes de 1 ano? E se tiver alergia a um dos alimentos? E se eu oferecer algo com tempero? Tenho que tomar cuidado para não cortar de forma errada. Não importa se eu estou exausta, não posso bater no liquidificador, tenho que amassar. Será que esqueci de abastecer a bolsa com fraldas? Será preciso estudar mais?

E a criação?

Tenho que tomar cuidado para não dar broncas demais. Cuidado para não dar broncas de menos. Ele está demorando para aprender as coisas? Estou ensinando certo? O tempo que passo com meu filho não está sendo proveitoso… Tenho que dar mais atenção! Tenho que dar mais colo! Estou cansada. Quero um tempo pra mim. É muito egoísmo? Tenho que levar mais para o parquinho. Preciso evitar excesso de brinquedos. Evitar brinquedos de plástico. Evitar TV. Tomar cuidado com a linguagem. Essa birra é culpa minha? Será que ele gosta de mim? Será que quer minha atenção porque não estou dando? Será que outras pessoas gostam do meu filho? Será que estou sendo a melhor mãe que consigo? Será que consigo ser mãe, esposa, trabalhadora e eu mesma ao mesmo tempo? 

E por aí vai.
Esse monólogo é infinito.

Milhões de dúvidas e autocríticas por minuto.
Precisamos sim refletir sobre cada passo que damos com nossos filhos, afinal, as próximas gerações serão resultado da criação de hoje.
É uma baita responsabilidade, mas nem por isso precisamos nos sentir menores por não termos feito tudo que julgamos perfeito.

Acontece muito da gente traçar o tipo de mãe que seremos antes de sermos mães. Falamos que nunca daremos açúcar, nunca deixaremos nosso bebê ver TV, nunca ficaremos um final de semana sem passear, nunca perderemos uma apresentação da escola.
Acontece.
Se você ainda não for mãe e estiver me lendo, saiba que é melhor deixar o livro referente à sua maternidade em branco do que rasurar depois.
Se permita. Seja flexível.
Porque o dia-a-dia pode ser pesado ao ponto de você se sentir de férias quando ficar sem seus filhos por duas horas e nem por isso você será uma mãe terrível.
Você pode colocar musiquinha no youtube para seu bebê de 8 meses quando você precisar de meia hora para fazer algo e nem por isso você será uma mãe terrível.
Você pode estar com pressa ou super cansada e esquentar a papinha industrializada e nem por isso você será uma mãe terrível. ABSOLUTAMENTE TODA mãe tem seu limite e nem por isso ela será “menas mãe” e vale lembrar que o limite da outra mãe é diferente do seu.

Lembremos disso.
Lembremos de nossos esforços e de nossas conquistas.
Lembremos de tudo isso quando formos falar com outras mães também.
Até naqueles dias em que nos sentimos uma mãe meio lixo, lembre que toda mãe se sente assim. Até aquela que você tanto admira e parece ser a mãe modelo.

Não dá pra não se julgar, eu sei….
Mas se julgue com carinho.

Pode sim se informar do passo seguinte mas não deixe que a informação ofusque seu instinto de VIVER o momento atual.

Abraços apertados,

De uma mãe que às vezes se sente meio super e outras vezes meio lixo mas tenta todo dia se perdoar e melhorar.


Post Scriptum:
Izabel, uma doulanda querida colocou no grupo de puérperas da Rede Ocitocina uma colocação maravilhosa que me trouxe muita leveza:

“Culpa a meu ver é quando vc intencionalmente joga o copo no chão pra ele cair.. (minha visão de culpa no geral, independente das definições do direito penal)”

De agora em diante, me lembrarei dessa frase antes de me culpar por algo. 🤣 Convido vocês a fazerem o mesmo!

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