Renascimento

Foi no trabalho de parto que eu me conheci.

Aquela onda que me arrepiava a espinha,
endurecia meus músculos
e me dava náusea,
era uma sensação de morte toda vez.

Morte porque eu nunca mais seria a mesma.
Morte porque era uma sensação desconhecida.
Morte porque tudo precisava acabar ali. Era uma despedida.
E eu sobrevivesse àquilo, eu não sabia o que viria em seguida.

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Amanda Greavette’s “Living in the Body”

Foi no trabalho de parto que eu senti cada centímetro do meu corpo gritar.
Minha visão escureceu e logo depois eu já não conseguia abrir os olhos para tentar enxergar.
Foi no trabalho de parto que eu percebi que a dor não era mais forte que eu, porque a força dela era minha.

A cada contração, uma contagem regressiva sem saber quando terminaria.
A cada contração, um sinal de que minha ela estava abrindo o seu caminho para vir.
A cada contração, desbravava um labirinto que ela também desconhecia.

Essa dor me enlouqueceu.
Perdi o controle e a noção.
Só tinha uma certeza: ela vinha aos poucos, aumentava e quando eu achava que não suportaria mais, ela ia embora.
Forte demais para prestar atenção no mundo, no medo, na pressão que me cercava.
Me entreguei e assim me permiti morrer.
Morrendo, fui para o céu. Me vi de cima e soube na mesma hora:
Essa dor é seu nascimento e mas também o meu renascimento.

Que rufem os tambores…
Essa dor é a sua chegada.

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