Puerpério e Abandono

No aniversário da Rede Ocitocina recebi tanto amor e carinho de pessoas tão especiais, mulheres que acompanhamos na gestação, parto e puerpério e também das mulheres maravilhosas que me acompanharam na gestação e parto, mulheres que mesmo babando no Mikhael me olharam nos olhos e perguntaram como EU estava. É tão raro receber isso que percebi que eu titubeava para responder. Quando cheguei em casa refleti muito sobre isso, percebi que as mulheres que eu faço essa pergunta, também, titubeiam para responder, exatamente porque não é algo comum. Geralmente as pessoas perguntam do bebê e da nova rotina, às vezes até perguntam se a mãe está bem, mas de uma forma simpática e rapidamente mudam o foco.

E, então, percebi como esse acolhimento é realmente importante e fundamental e como realmente as puérperas são negligenciadas. Eu vivo meu terceiro puerpério sozinha, e, ainda sim, não tinha percebido o tamanho desse abismo até aquele dia. O que me leva a reflexão de que realmente vamos nos anestesiando para sobreviver, especialmente quando se é mulher. Sobrevivemos a relacionamentos tóxicos, a solidão das ausências ainda que de corpo presente das pessoas que nos cercam, sobrevivemos ao excesso de trabalho, de demandas, sobrevivemos as noites sem dormir, sobrevivemos as exigências sociais de que devemos sobreviver a tudo com um sorriso no rosto, sobrevivemos a migalhas de ajuda porque nossa sociedade nos ensinou que é assim mesmo, sobrevivemos a abusos de todos os tipos. E para sobreviver, acabamos não olhando para dentro, não nos importamos em saber como estamos ou como nos sentimos. Dói menos assim. Temos medo de sem querer abrir uma caixa que não fechará mais, porque o puerpério é isso, nossas barreiras e caixas vão se desfazendo e precisamos olhar para o conteúdo. Não tem fuga e, quando tentamos fugir, o excesso de anestesia talvez nos prejudique ainda mais no futuro.

Sabe aquele armário ou quartinho da bagunça em que você coloca um monte de coisas dentro e nunca abre porque tem medo de que tudo caia na sua cabeça e aí você terá que arrumar, jogar algumas coisas fora, doar outras, organizar o essencial? Então, o puerpério é esse armário com um enorme defeito na porta que faz com que ela não feche completamente e as coisas fiquem caindo sem parar e mesmo que tentemos ignorar, acabamos tropeçando naquilo e aí precisamos escolher o que fazer.

PicsArt_10-02-08.59.46A puérpera é uma pessoa vulnerável psiquicamente e, como na natureza, às vezes elas têm protetores, mas na imensa maioria das vezes são atacadas por predadores narcisistas e, o pior, dentro das suas famílias e relacionamentos mais íntimos. Quantas puérperas são maltratadas pelo companheiro, quantas provocadas para depois receberem o “atestado” de loucura, quantas ouvem atrocidades de suas próprias mães, irmãs, tias, ou são desqualificadas em sua capacidade, quantas são abandonadas, traídas, enfim…

Eu mesma sofri vários abusos no melhor estilo gaslighting sendo provocada e recebendo o constante atestado de loucura a cada reação, e todos os dias recebo clientes ou relatos de mulheres que estão passando por situações de abuso familiar o que inclui o completo abandono. Pensar nisso tudo me leva a conclusão de que não é a maternidade pura e simplesmente que tem um lado B, mas a Rede de “DESapoio” e a sociedade que têm um terrível lado B e acabam tornando tudo mais inóspito e difícil.

E tudo isso torna fundamental buscar grupos de acolhimento, escuta e amparo. Muitas vezes vamos encontrar na rua ou até em espaços virtuais tudo que não tivemos em casa. E esse lugar fora será nosso porto seguro para enlouquecer de forma saudável, porque, como dizia Winnicott, se não houvesse um bebê o puerpério seria um estado de loucura.

Se eu pudesse dar um conselho para a recém mãe seria: não siga sozinha, existem várias mulheres e mães que estão vivendo o mesmo que você ou que dedicam suas vidas a ajudar mulheres que estão na sua situação, busque essas pessoas, esse apoio. Busquem aquelas que olham no fundo dos seus olhos e te perguntam “Como VOCÊ está?”

Texto de Priscila Saldanha para a Rede Ocitocina – Se gostou compartilhe, não copie.

Foto: Arquivo Pessoal

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