Maternidade Solo e Recomeços

Vejo muitas mulheres falando que morrem de medo de serem “mães solteiras”. Um medo imenso de terem se perceberem sozinhas na criação de seus filhos e também sozinhas ao não terem um par para o matrimônio. Eu sei, ser mãe e não estar com o pai é complicado. É, muitas vezes, desesperador. Eu, no entanto, nunca tive esse medo. Meu medo maior era de ser infeliz.

Eu poderia me ofender, porque ao falarem de como é assustador ser “mãe solteira” inevitavelmente vejo a minha história, com mães fortes, independentes e que eu considero ainda mais admiráveis por terem conseguido tudo que conseguiram.
Sou neta e filha de mães solos e solteiras. E vejo também, a mim mesma, mais uma vez nessa situação.

Eu vi de pertinho a sociedade falar de incluir mais os pais na criação dos filhos e isso não acontecer comigo. No meu caso, vejo como algo que foi benéfico. Não o tive em momento algum então não sabia do que sentir falta, mas sei que para muitos fica um vazio enorme onde antes era um núcleo tradicional de família.
Eu sempre quis ser mãe, desde pequenininha. Casar, ter um grande amor não necessariamente fazia parte desse sonho. Eu enxergava nitidamente a diferença entre ser mãe e ser esposa. Tinha (e tenho) vontade de me casar, mas se e somente se, esse relacionamento amoroso puder coexistir com a minha maternagem e a relação entre essa pessoa e minhas filhas for agradável, afetiva e independente do meu relacionamento romântico com ela.

Quando tive minha primeira filha, o relacionamento não vingou. Acredito por inúmeros motivos que tenha sido melhor assim. Fui mãe solo por quase 4 anos, com algumas recaídas e tentativas de co-habitação com o genitor.
Não foi nada bom, eu me via com sorriso forçado, enfeitando futuras memórias para tentar criar um ambiente bom para minha filha. Terminar foi a maior certeza que já tive. 1012849_10151892023933303_143206942_nDepois, seguimos eu e ela a vida da forma que já sabíamos pois tínhamos vivido sendo apenas nós duas por muito tempo.

A separação pode ser complicada para os pais, mas deve haver um filtro para que a negatividade não passe para a criança.

Quando me decidi, falei com minha pequena.
A conversa foi mais ou menos assim:
“Eu não estou feliz. Eu tentei. Tentei de muitas maneiras e muitas vezes. Eu queria ver você feliz, numa família como eu não tive, mas não consegui. Eu não posso ficar triste aqui porque não quero que você ache normal ser triste. Eu não amo o seu pai, mas eu amo você”
Ela aceitou numa boa. Fomos muito mais felizes desde então.
Uma parceria sem igual. Um vínculo mais forte do que palavras são capazes de expressar. Eu fazia praticamente tudo com ela. Éramos eu e ela contra o mundo.

Não vou mentir, ter que falar com advogados, oficiais de justiça, juízes, etc não é tranquilo. Mais parece um pesadelo do que qualquer coisa. Se o pai estiver com raiva, então… é daquelas experiências que você se esforça pra não entrar em colapso.
Me lembrava o tempo inteiro da máxima de Nietzsche “O que não nos mata, nos fortalece” então tentei focar no fato de que morta eu não sairia de lá, então era bom o mundo se preparar para uma força avassaladora porque eu faria questão de me reerguer.

Eu queria outro(s) filho(s). Ela queria irmãos. Eu, também filha única, sabia que um só filho não era justo. Iria fazer o possível para dar pelo menos um irmão para ela e talvez dar uma nova família inteira.
Para uma mãe solo socializar com amigos é difícil. Para arranjar tempo, disposição e aceitação para se envolver com alguém é quase impossível.
Muitos homens consideram uma mãe que é solteira uma isca “fácil”. Outros homens ficam intimidados. Alguns ainda acham imoral uma mãe namorar. (Já imaginaram? Uma mãe com filho pra criar ainda ter desejos?!) Nessas horas a rede de apoio é fundamental. Porque entre trabalho de 44h semanais e escolas com horário parcial, pernoites quinzenais, o preconceito enraizado da sociedade, depilação por fazer, cabelo por pentear e cansaço para quitar… o desgaste é o bastante para nos desencorajar. Mas somos seres humanos, né? Precisamos uns dos outros.
Por mais chocante que seja, uma mãe ainda é mulher. Ainda quer se sentir amada, querida e atraente.
Algumas querem relacionamentos. Outras querem relações rápidas.
Mas o mais importante é entender que isso é possível sim, mesmo com olhares tortos e pessoas horripilantes. Eu acredito mesmo que ninguém tenha a certeza absoluta de que está num casamento eterno, e toda mulher merece ser mulher mesmo sendo mãe.

Até uns anos atrás, eram comuns histórias horrendas de padrastos com enteados. Essas histórias eram praticamente a totalidade. Então a palavra PADRASTO era sinônimo de pôr a criança em risco para saciar uma carência emocional da mãe.
Nessa sociedade sexista pra caramba sempre foi mais fácil de aceitar um homem casar novamente e “criar sua nova família” e a primeira mulher ficava ali, recebendo pensão ou se matando de trabalhar e na parte prática ela tinha que fazer tudo pelos filhos sozinha. O pai ainda era a figura do auxílio financeiro e a mãe a entidade amável de dona de casa.

Agora, está mais fácil de vermos algumas mulheres buscarem seu recomeço.
São minoria, mas existem. Estou nessa lista.
Felizmente encontrei um pouco depois da minha separação uma pessoa que se encaixou perfeitamente na minha vida e eu abracei o destino. A primeira preocupação era com relação a minha filha. Demorei para apresentá-los, mas ela apoiou instantaneamente quando o conheceu, e só o conheceu após alguns meses de relacionamento. Sempre deixei claro que a prioridade era ela e ele precisaria respeitar o espaço sem exercer um papel de pai ou de companheiro da mãe. Ele seria o que caberia a ele ser, um padrasto. A figura de alguém que conviveria e criaria ela junto no dia a dia. Com as delícias e dificuldades. Se não, não funcionaria.

Esse recomeço é (in)tenso. Dá um frio na barriga mais intenso do que dar o primeiro beijo na adolescência.
É a vida mudando.
Eu sabia que merecia ser feliz, mas tinha medo de muitas coisas.
Me considerei mãe semi solo. Eu tive outra filha com esse companheiro atual e lido com o medo do tratamento diferente entre enteada e filha biológica. Mas sinceramente, são medinhos que nem se comparam a ter uma família tão maravilhosa.
Eu só soube que era possível ter uma família feliz fora do cinema quando eu lutei pra construir e reconstruir a minha.

Mas… Esse não foi o final.
Me separei mais uma vez e voltei a cogitar fingir que valia a pena continuar mesmo sem me sentir amada por completo se fosse para dar continuidade àquela família tão gostosa que tínhamos.
É claro que não valia. Antes do fim, eu pensava:

Se um dia eu me pegar ponderando sobre minha felicidade dentro desse relacionamento, espero que superemos juntos.
Seja para tentar mais ou para finalizar de forma amistosa.
Só nunca quero me sentir presa por conveniência. Presa por que é mais fácil de explicar para os outros. Presa e tendo que me contentar com a solidão dentro de uma farsa de família.

Não quero e não recomendo.
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Mais um luto. Um luto meu, da que era enteada dele e o luto da convivência diária da filha biológica dele. Me fez relembrar todas as vezes em que eu temi a aproximação dele com a minha filha mais velha no início do relacionamento, porque se um dia acabasse, seria muito doloroso. Não há nada que diga oficialmente que ele tem responsabilidade de se manter na vida dela, embora muitos ex padrastos e madrastas continuem na vida das crianças, como eu teria certeza que ele o faria? Eu mergulhando numa culpa por ter iniciado e também por ter findado. Mas a culpa materna, assim como o luto, eu sei que passa.
Agora é uma aventura diferente e ainda mais complicada. Ser mãe solo de duas e de pais diferentes fez com que eu ouvisse MUITAS coisas desagradáveis do tipo “Sabe que não precisa engravidar de todo homem que você vê?” e “Você é uma mãe dessas moderninhas que não para quieta, né?” só que embora esses comentários machuquem na hora, não serão maiores do que meu empenho de buscar alegrias.

Tem dias, que tudo que eu queria era ter ajuda. Ter alguém pra ajudar com a fralda que vazou e sujou absolutamente tudo, ou alguém pra fazer a comida enquanto eu termino de ajudar com o dever, ou alguém pra lavar o banheiro enquanto eu simplesmente descanso. Às vezes seria maravilhoso ter outro adulto na brincadeira. Ter alguém no passeio pra ajudar a levar as tralhas para o piquenique. Ter com quem falar sobre as apresentações da escola. Ter quem sinta amor e orgulho daquela criança também. É solitário, mas é e não poderia ser incompleto.
Nossa família somos nós.

Um dos maiores exemplos que podemos dar para nossas crianças é de que é possível amar e ser amada. Então se elas crescem num lar onde existem mais brigas ou apatia do que afeto, qual a lição que vão tirar disso? Melhor verem que sempre há outra chance, na vida. É bom que as crianças saibam e que todos entendam:
Mães também têm necessidades e mães são merecedoras de recomeços.

Um comentário sobre “Maternidade Solo e Recomeços

  1. raquelvieiracb disse:

    Sou mãe solo desde sempre e agradeço que você tenha escrito sobre isso. Às vezes é muito solitário. Não tenho conseguido mesmo conciliar maternar, a vontade de me relacionar, a vontade de trabalhar. Meu abraço a você. Se orgulhe da tua história, é de coragem.

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