Relato de Parto da Deise Gomes – Nascimento do Miguel

Maternidade Brasília, 23/09/2018. Plantão. Doula: Yohanna Cordeiro  (Rede ocitocina)

Antes de entrar no trabalho de parto propriamente dito, penso que esse meu processo iniciou emocionalmente dias antes. Numa quinta-feira, fui ao meu obstetra (que não faria meu parto por ser cesarista, eu já estava decidida a ir para o plantão da maternidade Brasília) levar uma ecografia. Ele disse que tudo estava ótimo, “melhor impossível” nas palavras dele. Entretanto, informou que o bebê estava um pouco acima da média para a idade gestacional (38 semanas) e que eu poderia ter dificuldades no parto normal em virtude da desproporção cefalopélvica. Desta forma, o mais indicado seria o agendamento de uma cesárea por precaução. Já havíamos conversado sobre isso antes e eu havia dito que ao completar 40 semanas eu preferia mais um pedido de ecografia e não o agendamento.

Porém, nesse atendimento isso não foi mais perguntado e eu comecei a receber vários papéis impressos para o agendamento da cirurgia. Ainda questionei timidamente se não poderia pelo menos ser mais pra frente, mas ouvi que o melhor é não correr riscos e proceder à cesárea com 40s1d.

Por mais que eu tenha estudado sobre essa justificativa da desproporção como uma das indicações mais usadas para cesárea, escutar ela do médico que te acompanhou desde o início e ouvir sobre a responsabilidade da mãe, dói no coração e começa a minar toda aquela coragem que você alimentou por toda a gestação. Eu não tive coragem de ler os vários papéis naquela quinta.

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De repente comecei a considerar que tinha que nascer antes daquele 01/10, data da cirurgia, se bem que acho que eu não iria mesmo assim. De qualquer forma, agendei três sessões de acupuntura para a semana da frente, quando completaria 39 semanas. Comecei a ler sobre indução. Marquei consulta com Dr. Luis Otávio, a consulta que as doulandas da rede têm direito e ia trocar uma ideia com ele sobre o que eu havia escutado. No sábado de manhã, fui ler os papéis que o obstetra havia me entregado e fiquei bastante surpresa e entristecida pela forma como uma cesárea é “empurrada” sob a alegação de que foi sua a escolha.

Nos termos, estava escrito de que fui informada que o parto vaginal era a melhor via de parto e que a cesárea representa mais riscos para a mãe e para o bebê e que, apesar de ter sido esclarecida e ter tido acesso a outras alternativas, eu escolhi o procedimento cirúrgico. Além disso, já estava pronta a guia de internação com a justificativa da desproporção cefalopélvica e, pior ainda, estava também impresso meu partograma, com os dizeres, entre outros, “colo fechado” e “ausência de contrações”. Deitei na cama e resolvi conversar com meu bebê, Miguel. Falei sobre a nossa situação, disse que eu estava pronta para recebê-lo e que tínhamos condições de juntos criar nossa dança para o nascimento. Depois da nossa conversa, coloquei várias musiquinhas no youtube para ele ouvir e várias orações de gestante. Me emocionei muito nesses momentos, relembrando toda minha preparação física e emocional. Segui o sábado normalmente e a noite, por volta das 19:30, depois do jantar, comecei a sentir uma cólica mais doída. Fui acompanhando e próxima de 01h eu achei por bem ir para o hospital ser avaliada. Até então estava mantendo contato com as doulas pelo whatsapp. Na avaliação, 1 cm de dilatação. Disse que isso poderia durar horas ou dias e não tinha critério para internação. Retornamos para casa e as dores não cessaram. Fiquei cronometrando por um app e via que os intervalos eram muito curtos, não chegavam a cinco minutos. Cronometrei até as 4:06, o intervalo era de pouco mais de 2 minutos e a duração de 40 segundos aproximadamente. Eu fui para o chuveiro, fiquei na bola de pilates, andei pela casa, sentava, percebia que quando a dor vinha eu não conseguia fazer nada, apenas tentava respirar e manter minha concentração. Falei para meu marido para retornamos ao hospital e numa ida ao banheiro, desceu um pouco de sangue. Falei para ele que tentaria me molhar mais uma vez pra gente ir, mas no box do chuveiro desceu mais sangue e a dor era intensa. Foi nessa hora que eu senti muito medo. Eu sabia que tinha que ir rápido para o hospital, mas primeiro tinha que conseguir vestir a roupa, descer até o estacionamento e ir de carro de águas claras até o sudoeste. Eu não via como eu conseguiria fazer isso., cheguei a falar sobre ligar para o SAMU. Meu marido disse que desceria rápido no estacionamento e colocaria o carro mais próximo do elevador, tive muito medo de ficar sozinha nessa hora. Sofri muito com dores até chegar a Maternidade Brasília, considerando a distância da minha casa e o receio de não dar tempo. Chegamos por volta de 5:30. Nessa hora eu já não conseguia conversar muito, eu só “funcionava” nos segundos fora da contração e elas estavam muito próximas umas das outras. Infelizmente, eu não fui bem recebida no hospital. A triagem foi completamente indiferente à minha dor e eu estava me debruçando sobre a maca. A enfermeira continuava fazendo perguntas de praxe, mas eu não conseguia responder direito e além disso estava sangrando. Tive que dar conta de responder nos segundos em que era possível e quando fui finalmente para a sala ser avaliada pela plantonista, ela disse: “seu bebê está quase nascendo, você já está com 9 cm. Levaram-me para a sala de parto humanizado a pedido do meu marido, apesar de em um primeiro momento terem dito que não estava disponível.

IMG-20181024-WA0039Chegamos nessa sala por volta de 6:20 e eu já fui logo para a banqueta, além de ficar segurando em um pano. Yohanna chegou e foi como um alívio e uma força para mim. Ela pediu para abaixar a luminosidade, pediu para meu marido colocar música que eu gostava, orientou ele a se posicionar atrás de mim, fez massagem, pediu para eu ficar de pé um pouco e ela me abraçou e ficamos balançando. Tudo foi tão reconfortante. Fiquei a maior parte do tempo com os dois.

Houve momentos em que eu pensei onde estaria a equipe do hospital. Eu senti quando o bebê desceu mais um pouco e avisei que já estava quase. Yohanna viu que estava coroando e chamou a obstetra. Em pouquíssimo tempo, tentando manter a concentração e fazer a força no momento certo, ele veio às 7:04 e foi amparado pelas mãos da plantonista. Miguel nasceu com baixo tônus e pude olhá-lo apenas por poucos segundos, mas jamais me esquecerei do olhar dele direto em meus olhos. Inexplicável a sensação. Mas também me recordo da médica dizer que precisava de ajuda rápido e ele foi levado para outra sala. O cordão teve que ser cortado rapidamente e não pudemos ter aquele contato pele a pele imediato, mas eu entendi a necessidade.

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Nós dois trabalhamos muito e fizemos acontecer nosso lutado encontro.
Poder ouvir o choro dele na outra sala e depois tê-lo em meus braços é presenciar o milagre da vida pelo qual sou muito grata. Miguel já me ensinava sobre conexão desde a gestação. Devo muito à confiança que depositei em nossa relação desde o início e às companhias que tive, Éder e Yohanna que acreditaram junto comigo e me ampararam.

Vínculo é mágico.

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