A Doula, o obstare e a mulher selvagem

A Doula é aquela que nos apóia quando chegamos na encruzilhada do medo, da sensação de que não temos mais forças, ela nos dá a mão e nos guia nesse encontro com nosso próprio poder, com nossa mulher selvagem.

Percebo um movimento crescente de intervenções de rotina e oferta de elementos externos “naturais” ou não medicamentosos para “facilitar” ou para garantir o parto. No entanto, é importante lembrar que toda intervenção é uma intervenção. Sempre que colocamos uma mulher em um circuito de exercícios de rotina estamos interferindo naquela fisiologia, naquele movimento natural e instintivo do corpo que em sintonia perfeita com o bebê quer parir. Toda e qualquer intervenção, seja natural ou medicamentosa só deve ser feita quando há uma real necessidade.
Para acompanhar um parto é necessário paciência, confiança, espera, e essa espera deve ser expectante enquanto for possível. Quando se trata de medicamentos já avançamos bastante em conseguir essa espera, mas quando se trata de exercícios e manobras têm se a ilusão de que “mal não faz”. Essa ilusão junto com a imensa dificuldade dos profissionais de apenas “obstare”, com a ansiedade natural da mulher moderna e com a falta de confiança em sua própria natureza (afinal somos afastas dela desde que nascemos) faz com que se comecem as intervenções precocemente, ao invés de dar tempo para o corpo trabalhar, dar tempo muitas vezes para aquela mulher se desconectar e entrar em contato com seu lado primitivo.
Esses exercícios e circuitos antes de uma real necessidade deixam a mulher exausta tanto física quanto emocionalmente, aumentam a ansiedade, pois a cada série a mulher espera evoluções que nem sempre acontecem e aos poucos essa mulher vai perdendo de vez o contato com o próprio corpo e pior não consegue mais desligar a parte “racional” do cérebro.
Não me levem a mal, sou uma super fã do spinning babies, mas como tudo o que é bom e se torna popular acaba nascendo um movimento de excessos e mau uso. Assim como homeopatia, acupuntura, aromaterapia, fitoterapia e outras técnicas de cura naturais devem ser utilizadas com correta indicação, o spinning babies e outros exercícios de parto também devem ser usados com correta indicação e devem ser pesados os riscos e benefícios. Por exemplo, uma mulher que está ansiosa em fase inicial do trabalho de parto, não há suspeita de assinclitismo, o ideal é ajudá-la a relaxar, com uma meditação ou terapia energética por exemplo, ao invés de colocá-la para fazer posições e exercícios. Ou quando uma mulher está entregue ao parto, movimentando o corpo livremente (é possível observar essa dança) não tem porquê interrompe-la para fazer um circuito só porque o bebê ainda está um pouco mais alto ou o parto não está evoluindo tão rápido. Deixa essa mulher dançar com seu bebê e ir achando seu caminho, deixe que ela leve o tempo necessário para essa jornada, deixe que ela elabore esse parto. Mais uma vez ressalto que não estou falando de distócias de posição que requeiram ajuda ou contínuas e longas paradas de progressão.
Vejo muitas Doulas querendo trazer e ofertar essas intervenções o tempo todo como se esse fosse o papel mais importante da Doula e isso acaba com essência do nosso papel fundamental. Não são exercícios, técnicas, spinning babies, massagens, que tornam a Doula essencial, isso qualquer pessoa com um treinamento é capaz de fazer. Nosso papel principal como Doula é guiar e apoiar a mulher no caminho para o encontro com sua própria força visceral, seu feminino sagrado e sua essência.
O olhar da Doula não é técnico, é transcendente. O poder de parir está dentro da mulher e não fora e nós como Doulas não podemos esquecer disso, não podemos trazer tantas técnicas de rotina, cada mulher é única, assim como sua jornada e percurso serão únicos, precisamos sempre lembrar de despertar as mulheres selvagens, porque só elas serão capazes de farejar seus caminhos de alma e aquilo que precisam viver nessa existência.
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Sabe aquele momento em que você acha que não vai conseguir, a dor e a frustração tomam conta, tudo parece tão distante, a vontade é de desistir, se entregar, mas aí você se lembra do que te fez chegar até ali, percebe que desistir não é uma opção e, então, é tomada por uma força visceral? Esse é o momento em que encontramos nossa mulher selvagem com toda sua garra, seu poder, sua liberdade e sua transcendência e esse encontro é a única forma de alcançar nossos sonhos.
Esses registros lindos são da Ana Karla @kayavelosofotografia que captou exatamente esse momento decisivo em que eu estava na encruzilhada e minhas Doulas Adele e Yohanna me guiavam para o encontro com meu poder.

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