Relato de parto – Larissa Menon

Eram exatamente 15:00 horas do domingo, 05 de agosto, quando me levantei da mesa, após o almoço. Estávamos fazendo os últimos ajustes ao lounge da nossa criança e havíamos parado para almoçar. Me levantei e senti um líquido escorrendo pelas minhas pernas. Eu chamei a atenção do Augusto para o fato e ele me perguntou se não era xixi. Tentei para o fluxo mas não tinha poder nenhum sobre aquilo que acontecia: era líquido amniótico. Augusto trouxe um pano para secarmos o chão e puxou uma cadeira para eu me sentar. Nesse momento fui invadida por um sentimento muito forte causado pela certeza de que a hora estava chegando, eu saberia se minha cria seria Carmen ou Vicente e minha vida mudaria para sempre. Chorei, me sentei e mandei mensagens. Avisei as doulas, a enfermeira e o médico, o Luis Otávio. Todos concordaram que a bolsa havia rompido. Agora era ter calma e aguardar.

Mas como é que se desliga do que está acontecendo, quando é isso o que está acontecendo?

Resolvi tomar banho para relaxar, mas antes recolhi um pouco do líquido que não parava de escorrer em uma vasilha, para termos certeza de seu aspecto e mandei para a enfermeira que confirmou nossa tranquilidade: estava tudo bem.

Após o banho, expectativa, mas nada a se fazer. Tentei manter a cabeça tranquila, curiosa para como seria quando o trabalho de parto começasse. A maioria das mulheres que têm a bolsa rompida antes do trabalho de parto começam a sentir cólicas os pródromos em até 6 horas. Por volta das 19 saímos, fomos dar uma volta na quadra e aproveitamos para passar no mercado. Uma vizinha nos encontrou e perguntou para quando o parto estava previsto. Eu respondi brincando que seria em algumas horas, provavelmente, pois eu já estava de bolsa rota.  Voltando para casa resolvi tirar as últimas fotos da barriga e postar no meu instagram e facebook.

As 6 horas se passaram e nem sinal de pródromos, nem cólicas, nem nada. Só o líquido que continuava a vazar e eu já estava em minha segunda ou terceira fralda. Por volta das 22 horas meu médico me procurou para saber como estava evoluindo, já que não tinha dado notícias. Falei para ele que não havia sinal de TP, ele me tranquilizou e me lembrou das maravilhas da madrugada onde muitos hormônios são liberados e contribuem para a evolução do trabalho de parto. Mas pediu, caso ele não engrenasse durante a madrugada, para eu ir ao hospital às 07 da manhã, avaliarmos. Avisei as doulas e fui dormir.

Minha mãe chegou perto das 02 da manhã. Ela estava aqui há quase 2 semanas quando voltou para São Paulo resolver algumas coisas e tinha passagem para Brasília no dia 07. Não deu tempo, a bolsa rompeu antes e ela voltou pra cá correndo. Quando ela chegou eu dormia. Sem sinais de trabalho de parto.

Acordei as 6 da manhã e comecei a me preparar para ir ao hospital. Mais uma vez meu médico me mandou mensagem, perguntando como eu estava e se nos encontraríamos no hospital às 07 mesmo. Confirmei nosso encontro e segui com o Augusto para o Santa Helena, que é do lado de casa. Eu poderia ter ido andando, pois não havia sinal nenhum de TP, nenhum incômodo, nenhuma dor.

Chegamos e logo fomos admitidos. A médica que primeiro me examinou me informou que estava com 1 cm de dilatação e que o protocolo seria internar e iniciar antibiótico. A avisei que meu médico estava a caminho e havia pedido para que ela requeresse uma ultrassonografia e um cardiotoco. Não demorou para que eles fossem feitos. A USG mostrou que nossa cria estava bem, mas não estava encaixada e o cardiotoco mostrou que ainda não havia contrações, mas nossos sinais vitais estavam ótimos.

O Luis Otávio viu os resultados e conversamos sobre a internação no próprio Santa Helena, pois como eu já estava há quase 18 horas com bolsa rota, seria necessário iniciar o protocolo de antibiótico. Ele nos perguntou também se gostaria de iniciar a indução do trabalho de parto. Quando o TP engrenasse ele poderia me dar alta e nós seguiríamos para a Maternidade Brasília que era onde eu gostaria que o parto ocorresse.

A internação foi rápida e ligamos para minha mãe que tinha ficado em casa levar nossas malas. Avisamos as doulas e logo eu já estava instalada e com o acesso para receber o antibiótico. Em seguida o Luis Otávio já estava no quarto para iniciar a indução. Foi escolhido o Propess que é mais eficiente que o Misoprostol, mas ele possui um veículo físico que não se dilui, por isso, como eu estava com muito líquido na bacia, me foi recomendado que eu ficasse cerca de 1 hora deitada para garantir que a fita da medicação não saísse do lugar. Eu estava bastante calma e o médico estava bem positivo quando o aplicou e me informou que eu estava com 2 para 3 cm de dilatação. Era por volta das 10:30 do dia 6 de agosto.

Passadas quase 2 horas me levantei, fui ao banheiro e já estava sentindo cólicas leves. Minha mãe estava lá já, e logo a Adele, minha amiga e, por obra do destino, doula, chegou também. As cólicas que já estavam bem presentes começaram a diminuir e depois de um tempo cessaram, chamamos o médico para avaliar e ele descobriu que o Propess não estava mais lá. Ele muito provavelmente caiu quando fui ao banheiro e eu não senti nem o vi no vaso. Resolvemos então tentar o miso, já que ele é absorvido totalmente pelo organismo e nós não correríamos o risco de outro medicamento sair do lugar ou cair quando eu me movimentasse ou usasse o banheiro.

Ao longo desse dia as cólicas retornaram e foram se tornando contrações. Por volta das 19 horas a Adele foi para casa descansar e pediu que fosse avisada caso o TP engrenasse. O Luis Otávio voltou próximo a meia noite para colocar o último comprimido, e eu estava com 3 cm de dilatação. Logo depois o Augusto mandou uma mensagem para a Adele. Ele esteve ao meu lado praticamente todo o tempo desde que minha bolsa rompeu e estava sendo o companheiro que eu sabia que seria, mas já estava também fisicamente cansado e depois de algumas horas de massagens e apoio, a chegada da Adele o aliviou também. Digo também porque foi com ela ao meu lado me massageando e pressionando meu quadril durante as contrações por boa parte da madrugada que consegui dormir. Mas conforme a manhã ia chegando, as contrações foram diminuindo mais uma vez.

Ainda antes das 07 da manhã do dia 07 de agosto o Luis Otávio passou no meu quarto mais uma vez para ver minha evolução. Ele fez um toque: 3 cm, mas também percebeu que a prostaglandina tinha feito seu efeito e meu colo estava bastante mole e isso significava que poderíamos seguir para o próxima fase da indução: a ocitocina sintética.

Faço uma pausa para compartilhar algo. Meu desejo para a chegada da minha primeira cria era um parto natural. Eu soube, quando a bolsa rompeu e não tive um trabalho de parto espontâneo, que meu parto natural não seria mais possível. A indução era o caminho a se seguir. Apesar de toda calma naquele último dia, para dizer o mínimo, eu estava bastante apreensiva com o uso da ocitocina e fazendo um grande exercício mental e emocional para aceitar como a situação se apresentava e que meu corpo precisava daquilo. Ao mesmo tempo era bastante difícil me desligar da racionalidade e esquecer que nada do que estava acontecendo comigo era espontâneo. Aquela ocitocina seria sintética, eu não estava tendo meu coquetel de hormônios, entre as descargas de ocitocina eu não teria endorfinas, eu não teria momentos de descanso ou prazer ocasionados naturalmente pelo meu corpo e por mais que eu aceitasse, me doía muito saber disso.

Por volta das 7 horas da manhã o soro com a ocitocina começou a correr em sua dose mínima, sendo liberada aos poucos, por meio de uma bomba. Foram duas horas onde todo o cenário se alterou. Eu comecei a sentir as dores que ela me causaria, bem diferentes das contrações que senti da madrugada. Meu humor caiu numa queda livre e eu estava cada vez mais impaciente, mas ainda estava positiva. Por volta das 10 da manhã chamamos o Luis Otávio para avaliar. Meu comportamento poderia indicar uma evolução no trabalho de parto, pois era algo que as mulheres demonstram quando se aproximam dos 6 cm de dilatação. Um toque confirmou que eu ainda estava com 3 cm, os mesmos 3 cm desde o começo da tarde do dia anterior, não muito diferentes dos 2 para 3 cm que tinha quando cheguei aquele quarto. Não deixei que essa notícia fosse um balde de água fria. Eu já estava craque na resiliência e decidi que estava na hora de aumentar a dosagem da ocitocina. Eu queria que meu corpo alcançasse meu coração e minha mente, eles já estavam prontos para o parto.

Com o aumento da dosagem a dor deu um salto. Me concentrar na respiração começou a ficar mais difícil, descansar entre as contrações começou a ficar mais difícil. Eu não conseguia esquecer que tudo aquilo era induzido, eu não encontrava a partolândia. Horas se passaram sem que eu percebesse. Já era depois das 14 horas quando o Luis Otávio voltou ao quarto para me encontrar de 4 no chuveiro, chorando muito e agarrada ao Augusto. Um toque revelou: 3 cm.

Quase 48 horas depois de minha bolsa ter rompido, 28 horas depois de início da indução, eu ainda estava em 3 cm. Essa dor foi a maior de todas que eu senti. Constatar que apesar de querer muito um parto, eu talvez não o tivesse. Essa dor me deixou claro que eu já não aguentava as dores físicas. Eu estava exausta fisicamente, mas a verdade é que eu já não queria mais sentir as dores que eu sentia. Sem coquetel de hormônios, sem espontaneidade. O Luis me informou que a criança ainda não estava encaixada, na verdade, ela estava tão alta que ele não sentia sua cabeça. Eu pedi algo para a dor e o Luis me disse que naquele momento, com aqueles 3 cm, se eu fosse medicada para dor, o trabalho de parto poderia ser interrompido. Eu já sabia disso. Mas eu não estava pronta para a outra opção, que eu sabia que iria escolher. Eu chorava no chuveiro, sentindo as contrações induzidas pela ocitocina sintética quando minha mãe me levou seu telefone. Meu pai estava na linha e orou para que Deus me desse resiliência e sabedoria.

Durante todo o processo de indução foram realizados cardiotocos que mostravam que estava tudo bem com minha cria. Meus sinais vitais também sempre estiveram bem. Desse ponto de vista tínhamos tudo para continuar a indução, mas eu estava exausta.

Pedi para que chamassem o Luis Otávio e que minha mãe e a Adele saíssem do quarto, pois eu queria que apenas o Augusto e eu conversassemos com ele sobre a cesárea. Sim, até aquele momento a cesárea era algo que sempre foi uma possibilidade, ela sempre é, mas não havíamos discutido ela. Ela era nosso plano Z. Ele nos explicou como seria o procedimento, perguntou se eu tinha alguma preferência e quais eram nossos planos para o atendimento pediátrico. Conversamos candidamente e eu o expliquei que ainda não tinha certeza se queria interromper a indução e optar pela cesárea. Mas a verdade é que eu sentia que nada de extraordinário iria acontecer nas próximas 20/18 horas para eu uma evolução meteórica. Eu não via motivos para levar o protocolo de indução até o final. Porque o desfecho poderia ser uma cesárea e eu já estava muito cansada. Física e emocionalmente. Ele saiu do quarto para me dar tempo para pensar e eu conversei com o Augusto. Expliquei para ele como eu me sentia e mais uma vez o que eu recebi foi apoio, não importava o que eu escolhesse.

Chamamos o Luis Otávio novamente e lhe informei que eu queria aquela cesárea. Ele saiu para preparar a documentação e não muito tempo depois a enfermeira já estava lá com o padioleiro e a maca para me levarem para o centro cirúrgico. Pedi para aguardarem, pois minha mãe não estava lá e eu precisava vê-la antes de ir. Tirei minha aliança com calma e depois de muita insistência da enfermeira subi na maca. Minha mãe chegou quando estávamos seguindo para o elevador e desceu conosco até o centro cirúrgico.

Entrei com a Adele e o Augusto. Que se vestiram rapidamente e logo estavam comigo em frente a sala de cirurgia. O Luis deixou que a Adele ficasse comigo durante a anestesia, eu estava com bastante medo pois morro de pavor de cirurgias e ainda estava sentindo as contrações da indução. Encostei a cabeça em seu ombro e ela me explicou tudo o que iria acontecer e me falou que o Augusto estava lá também, próximo a porta. Após algumas tentativas, pois tenho uma escoliose bem na vértebra onde se aplica a anestesia, o anestesista teve sucesso e logo fui deitada na maca. O campo cirúrgico foi levantado e eu sentia o iodo sendo aplicado em mim. Depois disso não senti mais nada.

Fui tomada por um medo que cresceu muito rápido, virando um ataque de ansiedade. Eu não conseguia respirar. Eu queria desistir. Eu pedia para o Augusto pedir para não começarem a cirurgia, pois eu não sentia que estava pronta, eu não achava que seria capaz de aguentar aquilo. Mas parecia que o Augusto não me entendia muito bem, ele não me atendia. A Adele, ao nosso lado, pedia para eu me concentrar na minha respiração, pois tudo aquilo logo acabaria. O anestesista, do meu outro lado me perguntava se eu estava com nauseas, o que eu lhe disse que não, enquanto insistia com o Augusto e ouvia da Adele que já estava acabando, eu só precisava respirar. Mas eu não entendia, eu achava que ainda não tinha começado e senti que iria vomitar. Falei para o anestesista que logo me aplicou uma medicação. Durante todo essa essa escalada do ataque de ansiedade eu ouvia meu médico pedindo para o anestesista abaixar o campo, mas apesar de saber, não entendia o que ele queria dizer. Quando por fim ouvi claramente “Enéas, abaixa o campo. Larissa, olha quem está aqui”. E então eu vi. O campo foi baixado e o Luis o tinha nas mãos, com o cordão enrolado em seus pés, o Vicente. E ele veio para o colo e eu o reconheci e o recebi e eu me senti tão calma novamente. Tudo fazia tanto sentido naquele momento. Eram 17:29 do dia 07 de agosto se 2018.

Vicente ficou no meu colo e eu o vi expulsar o líquido de seus pulmões num choro lindo. Eu senti seu calor e seu vérnix e senti seu cheiro. Ele ficou ali por um tempo que não sei dizer quanto e então foi levado para o bercinho que estava próximo a minha cabeça. O Augusto acompanhou todo o processo e nossos desejos foram todos respeitados e eu estava ali, vendo tudo também, enquanto meu corpo era fechado. Eu tempo depois a Adele nos trouxe minha placenta para eu ver e eu a toquei e senti e saudei sua importância na nossa história. Eu vi os cristais de cálcio que se formaram nela e achei tudo tão real e surreal.

Não sei quanto tempo se passou, mas senti que foi rápido e logo eu e Vicente fomos levados para a sala de recuperação onde ele voltou para o meu colo e então pegou meu peito. E lá ficou até a hora de voltarmos ao quarto.

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