Relato de Parto da nossa Doula Priscila Saldanha

Equipe:
Doulas – Adele Valarini Yohanna Cordeiro
Fotógrafa – Ana Karla Veloso Valentim
Enfermeira Obstetra – Mônica Martins
Obstetra – Luis Otávio Manes Pereira
Pai e Companheiro – Renato Gama Rebello

Não poderia encerrar o ano sem relatar a experiência mais mágica e perfeita da minha vida.

Desde aquela manhã, ensaio esse relato, mas como colocar em palavras algo tão mágico, tão perfeito, tão sonhado. Para as palavras que faltem, o vídeo que transborda amor.

Não há como falar desse dia sem voltar um pouco nos anos, há 7 anos e meio uma cesárea desnecessária, fria, sem contato trouxe o maior amor da minha vida, Maria Luiza, e também me despertou para a incoerência de que o momento mais sublime, de que o momento em que senti o amor incondicional tenha sido desnecessariamente em um centro cirúrgico cercada de pessoas estranhas, seguindo protocolos estúpidos e vendo minha filha, meu pedaço de coração sendo levada embora enrolada num pano sem que eu pudesse tocá-la, sem que eu pudesse lhe dar as boas vindas.

Depois, há quase 3 anos vivi meu renascimento ao parir minha segunda filha, encontrei tanta força em mim que fui em busca de fazer o mesmo para outras mulheres. Meu VBAC foi maravilhoso por mim, pelo meu encontro com minha mulher selvagem e pelo meu encontro pessoal, no entanto, foi uma péssima experiência com o hospital e a equipe técnica. O relato desse parto está no meu blog pessoal

Eis que na madrugada do dia 14 de setembro de 2018 eu viveria a experiência mais intensa, visceral, transcendental e cheia de amor de toda a minha vida.

A gestação foi tranquila, começou a ficar difícil na reta final, com 36 semanas começaram os pródromos que muitas vezes eram tão intensos que parecia que o parto engrenaria, uma dor no quadril e no cóccix tornaram toda e qualquer atividade difícil e cansativa. Por ser o terceiro eu esperava que ele viria antes das 39 semanas, quem sabe no meu aniversário dia 30/08, mas não eram esses os planos. Com quase 39 semanas minha filha do meio foi internada e passei meu aniversário com ela no hospital, as contrações até pararam tamanho o susto.

Tivemos alta, fomos para casa eu já estava de licença, Mikhael liberado para vir, mas os dias foram passando, a Mônica minha EO foi para o Sia Parto e nenhum sinal do Mikhael, ela e eu sabíamos no fundo que ele esperaria ela voltar. 40 semanas, 40 +1 +2 +3… Mesmo sendo Doula e Terapeuta , a ansiedade começou a tomar conta. Será que ele não viria a tempo para um parto domiciliar? 40+4, eu já não queria fazer mais nada, passava o dia com o estresse político e assistindo Netflix. Então, minhas Doulas, amigas e sócias maravilhosas organizaram um chá de bênçãos lindo para mim. E não é que na madrugada antes da manhã do chá de bênçãos, o corpo começou a dar os primeiros sinais de que de fato o parto se iniciaria, às 3h da manhã tive as primeiras contratações com dor nas costas, elas vinham a cada 10 minutos, perdi tampão, tive sangramento. E assim como no parto da Catarina, por volta de 7h da manhã depois de vários banhos, as contrações ficaram bem espaçadas. Fomos para o Jardim Botânico, para o chá de bênçãos, pintura de barriga, carinho, lanche gostoso, sol, natureza, tudo perfeito.

Chá de bençãos com pintura da Bárbara Moreira, nossa parceira do Olhar pós parto

Quando foi por volta de 18h meu marido foi na padaria e apareceram novamente as contrações, dessa vez bem mais fortes, sabia que em breve tudo começaria de fato.

Por volta de 20h o ritmo já estava bem intenso, a cada 7 minutos, lanchei e fomos para o banho, eu meu marido e a Catarina. No banho de 20 minutos, 4 contrações, ali começou o trabalho de parto ativo efetivamente, meu comportamento mudou, não queria mais conversar, meu olhar mudou, virei bicho, não tinha mais conversa, não tinha mais volta. Ali estava a mulher selvagem que traria Mikhael. Minha última ação consciente foi avisar no grupo do parto que estava começando, isso às 21h19. Renato entrou em contato com o Luis Otávio e a Mônica, e por volta de 21h30 todos já estavam se encaminhando para minha casa. A Ana Karla e Adele foram as primeiras a chegar, a Adele me achou em casa pela vocalização que fazia eco. 22h30 chegou o Luis com toda sua calma e carinho, na sequência a Mônica. Equipe quase completa. Contrações bombando, eu já não estava mais sociável, era bicho, fera, estava no meu caos e luz internos, enquanto todos me ancoravam com amor, Amparo e cuidado. Não sei as horas ao certo, mas perto de meia noite aceitei um toque e estava com 4cm, quem ler meu relato do outro parto vai entender que isso significa que Mikhael já já estaria nos meus braços se o parto seguisse o mesmo padrão. ( Cabe aqui a observação de que só quis toque para entender a dinâmica do meu corpo e provar que dilatação não tem significado nenhum.)
A Adele com sua vibração super positiva mantinha um sorriso encorajador, e com suas mãos mágicas aliviava a dor das contrações. Voltei para o chuveiro e lá embarquei na Partolandia abaixada dormia entre uma contração e outra e vocalizava quando vinha a onda. Entre as contrações vi a Yohanna lá, pronto a equipe estava completa, o círculo de energia necessário para a magia acontecer.

Saí do banho e as contrações ficaram mais fortes, bem próximas, no intervalo eu ia cada vez mais longe e quando as ondas vinham eu gritava com mais intensidade. De repente duas contrações emendadas e a bolsa estourou, na cara da Adele literalmente. Líquido claro, tudo bem, mais duas contrações sinto meu corpo tremendo, percebo que é a descarga de adrenalina do expulsivo chegando, de repente volto do transe, um lampejo de consciência, estou presente, forte, desperta, sinto um puxo, dois, sinto Mikhael e falo que está nascendo. Luis propõe outro toque, aceito, 6 cm e bebê “alto”, pergunto alto quanto? “No ponto zero”. Nas duas contrações seguintes ao toque fiquei tensa, me esqueci do meu parto anterior e um monte de medos me tomou, então a Adele, a Yohanna e o olhar da Ana Karla entre uma foto e outra foram fundamentais para me resgatar de uma possível bad trip. Luis me encorajando dizendo o quanto eu estava ótima e lá no canto o olhar da Mônica sereno que me dizia “tá acabando”.

Os puxos vinham com tudo, Adele me segurava por trás e eu me apoiava nas mãos da Yohanna (numa das fotos da para ver a intensidade que eu a segurava rsrs). Uma força gigante daquelas de ficar vermelha, a Adele sugere que eu vá fazer xixi. Eu sabia que não tinha mais xixi, mas a privada me pareceu uma boa ideia. Mal sentei e já levantei com uma contração forte, senti arder, avisei que ele já estava bem próximo. A Yohanna avisou ao Luis que tinha visto algo diferente. Eu via as conversas como cenas de um filme. Voltei para a banqueta, todos se aproximaram. A Catarina dormia e a Maria Luiza acordou assustada, o Pai foi acalmá-la, eu pedi que ele voltasse porque Mikhael já estava nascendo. Coloquei o dedo e senti a cabeça dele há uns 3 cm de sair. As contrações eram muito fortes e emendadas, eu me tremia toda, estava de lado na banqueta. Durante todo o parto meu corpo se movimentava livremente sem nenhuma intervenção.

De repente uma contração muito longa emendou em outra, o círculo de fogo absurdamente intenso, senti que ele coroava. Renato me lembrou que aquele era o momento de não fazer mais força para não lacerar, na verdade ele disse “ele está aqui, agora é aquela hora que você fala para as mulheres”. Outra contração infinita e a cabeça aparece quase completa “ele está aqui amor” disse o Renato, “peraí que tem uma circular” disse o Luis e foi tirando a circular e avisou o Renato e então a última contração e Mikhael nasceu com tudo, como um foguete direto para as mãos do Pai. Eu o agarrei e senti amor, medo, Plenitude, tudo junto, todas as emoções vieram a flor da pele. Ele estava um pouco mole e não respirei até que ele respirasse e então o alívio, a redenção, a melhor sensação da vida.
Mikhael chegou, com todo amor que uma nova vida merece. Eu tive todo apoio e Amparo que uma mulher merece. Foi um sonho realizado, sonho de toda uma vida. Foi perfeito.

4,180 kg, períneo íntegro, liberdade total de movimento e de posição na banqueta, depois descobri que estava com um rebordo de colo exatamente no lado que esticava as pernas como se estivesse tentando abrir espaço. Meu parto foi de puro instinto, entrega, meu corpo se movia sozinho numa dança perfeita com o Mikhael.

Minha equipe foi divina. Mônica Martins com toda sua calma e amor, quanto carinho e força apenas num olhar, quanto cuidado. Luis Otávio com todo seu amor e carinho, alegria, positividade, exercendo o mais perfeito papel de obstare. Adele e Yohanna Doulas, amigas, não tenho palavras para agradecer e explicar o que vocês significaram para mim, definitivamente sem vocês teria sido infinitamente mais difícil. Vocês não apenas aliviaram as dores, como sustentaram minha transcendência, iluminaram meu caminho e me permitiram sentir segurança para mergulhar no oceano de ondas gigantes e transformações que é o parto. Ana Karla, estava lá como fotógrafa, mas foi seu olhar que me trazia de volta a sensação de amparo e segurança quando a Adele e a Yohanna estavam me sustentando fisicamente. E foi pelo seu olhar que revivi o parto quando o dia amanheceu e percebi como eu estava diva, maravilhosa e não horrorosa e histérica como meu racional me falou depois que tudo acabou. Ter você ali me permitiu reviver a madrugada mágica como ela de fato foi linda e visceral. Renato, pai das coisas mais preciosas que tenho nessa vida, serei eternamente grata por ter embarcado e buscado essa viagem junto comigo, mesmo sem saber o que teríamos pela frente, obrigada por me permitir projetar minha ferocidade tão necessária para uma fêmea parindo. Às minhas filhas toda a gratidão por terem com seus próprios nascimentos me despertado para minha missão de vida e por estarem presentes ajudando a trazer o irmão a vida e principalmente por me permitirem sentir esse amor incondicional.

Equipe linda!

Quando a Maria Luiza nasceu passei a estudar fisiologia do parto e me apaixonei, quando a Catarina nasceu, descobri minha missão de vida e na chegada do Mikhael pude ter a certeza de que escolhi o caminho certo. Na falta me tornei Doula e na presença tive a certeza do quão fundamental é esse apoio.

Todo amor e gratidão por todos que eu sabia que estavam vibrando por mim, pelas amigas que participaram a distância, pela minha vizinha Daniela Macêdo Jorge que ouviu, sentiu e se concentrou a cada contração, pela Ana Flávia Manes Pereira que acompanhou por WhatsApp em tempo real, por essa equipe perfeita, pelo meu companheiro, pelas minhas filhas, e pelo Mikhael meu milagre.

Serei eternamente grata por essa vida.

2 comentários sobre “Relato de Parto da nossa Doula Priscila Saldanha

  1. Larissa disse:

    lindo, emocionante e indescritível como a própria Priscila. Pessoa linda que tratou de mudar seu objetivo de vida para ajudar mulheres a dar a luz de forma mais linda possível. Vc é incrível. Inteligente. Resignificante. Intensa, lutadora e linda! Parabéns. Seu trabalho faz TD a diferença na vida das mulheres e que vc seja extremamente reconhecida como merece… Uma mestre, que muda a vida em prol de melhorar a vida de outras mulheres. Torço por vc. Competente dedicada e sensivel. Te admiro.

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