Relato de meu nascimento – Yohanna Cordeiro

Mais um ciclo se conclui e se inicia. Escrevi em 2018 esse texto meu nascimento. Saber a forma em que cheguei ao mundo me marcou muito, recomendo a todos que busquem saber, pode responder algumas questões íntimas ou talvez trazer mais perguntas.


Meu aniversário está chegando e com ele, reflexões sobre a vida.

Só que agora, vou fazer o relato do meu nascimento.
Ou melhor, o relato do que me foi relatado sobre meu nascimento.

[Minha mãe, Lilian Cordeiro, grávida de mim]

No ventre, eu era Anaïs e minha mãe quis que eu herdasse o sobrenome de minha vó (Salomé Pereira) mas infelizmente não pôde porque ela mesma herdou apenas o do meu avô – Cordeiro.
Minha avó na época estava com câncer de mama buscando tratamento lá na Indonésia, onde morava. Gangrenou e ela foi até Cingapura onde a médica que conseguiu resolver com sucesso se chamava Yohanna que também era o nome da enfermeira.

Na família, não acreditamos em coincidência então foi visto como um sinal. Elas disseram que significava “A preferida de Deus” e como homenagem, fui rebatizada antes de nascer. Minha avó estava de licença somente até fevereiro e para minha mãe acompanhar ela de volta à Indonésia eu precisava ter no mínimo 15 dias por recomendação médica.

Meu nascimento foi então agendado, para ser induzido.

Sua tentativa de indução “falhou” e ela não teve seu sonhado parto vaginal. Sonho esse que herdei, por tanto ouvir ao crescer que minha mãe se informou melhor depois do parto e os motivos para ter sido cesárea não eram reais. A não tinha ameaça de “sofrimento” e o tempo estava do lado dela. Foram apenas 8h para uma indução em uma primigesta.
Ela sempre lamentou o parto roubado e a recuperação difícil.

Não tive/tenho pai (a pressão da paternidade era maior do que ele esperava quando ele aceitou a missão) mas alguns dos melhores amigos da minha mãe foram me ver no hospital um pouco depois, mas ela passou a operação e internação sozinha.

Fui a única bebê a nascer aquele dia naquele hospital e na época ainda tinham berçários.
Minha mãe, recém operada, me viu de longe e passou o primeiro dia praticamente todo distante de mim. Me disse: “Eu chorando de um lado e você chorando do outro”.
Fiquei no berçário. Sozinha. Um dia inteiro, não deixaram ela encostar em mim quando nasci e depois de horas, quando tentou amamentar não conseguiu. A enfermeira impaciente disse que me dariam glicose e não tentaram novamente. Voltei para o berço e continuei sozinha.
Ela diz que talvez daí venha minha constante sensação de solidão.

Ao receber alta, ela foi lidar com a vida pós parto. Não viajamos. Fico imaginando a quantidade enorme de frustrações e responsabilidades numa mãe solo. Como deve ter sido difícil lidar com um puerpério tão pesado sem família por perto e sem companheiro. Com tantos lutos pelo que planejou e não conseguiu.

Quando eu soube de todos esses detalhes eu chorei, assim como choro agora de imaginar qualquer bebê nessa situação.

Desde muito cedo eu tinha vontade de carregar crianças menores que eu no colo. De cuidar, abraçar. Sempre me imaginei como mãe e sempre quis um cenário diferente daquele em que nasci.
Não tenho como ter certeza se aquelas primeiras horas de vida me marcaram tanto, mas tenho certeza que nenhuma mãe e nenhum bebê merece isso. Essa distância, essa frieza. Sei bem que o nascimento é um momento e a criação é uma longa estrada com voltas, curvas, retornos e mais destinos do que chegadas, mas quando eu soube desse início da minha história, foi como encontrar peças de um quebra-cabeças que eu ainda não tinha percebido que estavam faltando.

Ao descobrir a doulagem, fiquei encantada.
Sabia que a doula não podia de forma alguma garantir um parto natural ou normal, mas poderia trazer consigo uma energia boa. Podia trazer informações. Podia fazer companhia. Podia dar força para que tivessem uma experiência positiva no nascimento de seus filhos.
Não quero que ninguém que eu acompanhe se traumatize por décadas em relação ao nascimento dos filhos. E que nenhum filho fique traumatizado com a forma em que chegou ao mundo.
E se traumatizar, que reflita e altere o valor dessa experiência quando estiver pronto.

Eu queria, às vezes, ter sido a Anaïs Salomé Pereira (seja lá como ela poderia ter sido) mas estou começando a gostar de ser a Yohanna Cordeiro.

E espero que semana que vem, com minha nova idade, eu sinta plenamente que consegui conquistas que foram frutos da forma que nasci.

[Texto: 28/01/2018]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s